Calatonia: um método de integração fisiopsíquica

Três importantes autoras no campo junguiano, Emma Jung , Marion Woodman e Polly Young Einsendrath , refletem, em suas produções teóricas sobre amor e desejo de mulher,maternidade, casamento como relação psicológica, expressividade do corpo e seus transtornos.A partir da leitura de capítulos escolhidos ,discutiremos em grupo , as imagens do feminino e o cultivo da alma, tarefa de difícil compreensão em nossa cultura tomada pela compulsividade.
Os encontros quinzenais terão hora e meia de duração com início previsto para o mês de Março.
Em Jundiaí: Quartas feiras, das 19h00min ás 20h30min.
Em São Paulo: Terças feiras, das 15h30min ás 17h00min.
Mensalidade: R$140,00.
Maiores informações e inscrições poderão ser feitas através dos telefones:
Jundiaí:011-4522-6701
São Paulo:011-3887-7125
Coordenação: Denise M.Molino CRP06/6070 : Especialista em Psicologia Clinica,Psicoterapeuta junguiana,membro da IAJS (International Association for Junguian Studies), orientadora de grupos de estudos e supervisão em São Paulo e Jundiaí onde clinica.
O curso enfoca a importância da anamnese e avaliação para estabelecer o plano de tratamento corporal que o terapeuta utiliza no trabalho com seus pacientes. Os métodos e técnicas são vivenciadas em seu próprio corpo, dando possibilidade de sentir os efeitos dos exercícios em si mesmo e desenvolver a manualidade adequada para seu trabalho. Exercícios de propriocepção possibilitam modificação de tônus muscular.O aprendizado é baseado em diversos métodos como Mézières, Cadeias Musculares, Eutonia, Tecnicas de relaxamento entre outros. Possibilidade de desenvolver um pensamento clinico a ser aplicado nas diversas patologias: Cervicalgia, Enxaqueca, Torcicolo, Lombalgia, Hérnia de disco, desvios de coluna, Entorse, Stress.
1º Módulo -19 e 20 de março
2º Módulo -16 e 17 de abril
3ª Módulo -14 e 15 de maio
4º Módulo -11 e 12 de junho
5º Módulo- 16 e 17 de julho
6º Módulo-13 e 14 de agosto
7º Módulo-10 e 11 de setembro
8º Módulo-15 e 16 de outubro
9º Módulo-5 e 6 de novembro
10º Módulo-10 e 11 de dezembro
Destinado a : Fisioterapeutas, Enfermeiros, Médicos, Psicólogos, Dentistas,Terapeutas Ocupacionais, Professores de Educação Física, Professores de ioga e aos demais interessados.
Um sábado por mês :das 10 às 12 h e das 14 às 17h e domingo das 9h às 12h
Vaga para 20 alunos
Inscrições pelo telefone (11) 4113 4192
Mais informações : www.marciacustodio.com.br
E-mail: Marciacustódio@uol.com.br
Destinado basicamente a pedagogos, professores, psicopedagogos, psicólogos e profissionais que atuam na área de educação e cultura infantil.
Objetivo: propiciar uma reflexão sobre a atuação do profissional junto à criança, em meio escolar ou em outros ambientes (educacionais ou terapêuticos), assim como um aprimoramento dessa ação.
Apresentação:
A Pedagogia Profunda acata um projeto educacional capaz de abranger a criança na sua totalidade, considerando seu corpo, sua mente, sua capacidade criadora, seus sonhos, sua alma: no âmbito desta Pedagogia, o currículo é a vida.
Nesse sentido, diante da discrepância entre os objetivos da educação contemporânea e o projeto de tornar-se homem que cada criança carrega dentro de si, a Pedagogia Profunda propõe novos caminhos.
PARTE TEÓRICA: o pensamento de Jung constituirá o eixo desta parte do curso. Recorreremos ainda a outros autores e a uma documentação diversificada. Consideraremos aspectos históricos e simbólicos de práticas infantis na antropologia, na história das religiões, em contos e lendas e na busca do alquimista.
Conteúdo Programático:
1) O trabalho da criança com a matéria: Jogos Pedagógicos.
2) Dispersividade, destrutividade, provocação: A Criança-Shiva.
3) O difícil exercício da verdadeira criatividade infantil.
4) Educação e espiritualidade: O Jogo de Ser Humano – Sentidos da vida.
5) Prejuízos do ensino padronizado: CorpOração.
6) A Infância, um sacerdócio em prol da humanidade.
7) A Pedagogia da dança na vida e na educação – Introdução, e duas lições: A didática da tolerância, e Almas de crianças.
8 ) Ritmos pedagógicos essenciais.
9) A dança circular enquanto técnica de trabalho corporal / O trabalho corporal à luz do espírito da dança circular.
10) Remédios pedagógicos: meios de contenção suaves e jogo dramático grupal espontâneo.
11) A vida onírica na Pedagogia – A didática dos sonhos.
12) Princípios de Pedagogia Profunda.
PARTE PRÁTICA:
Trabalhos corporais: técnicas de abordagem corporal do Dr. Sándor Pethö, e outras afins.
Danças Circulares e outras práticas de dança em educação e no trabalho com crianças em geral.
Técnicas artesanais: tecelagem, macramé, origami, papel machê, velas, cerâmica, mosaico**…
Trabalhos manuais, brincadeiras e brinquedos com diversos materiais: papel, fibras, tintas, gesso, argila, madeira… (com terra, fogo, água e ar) -Conforme interesse do grupo-.
Em São Paulo: Sábado, das 9:00 às 12:00, início 19 de março de 2011, término 18 de junho.
Local: Rua Ayrosa Galvão, 74, Água Branca.
Em Cotia: Sexta-feira, das 9:00 às 12:00, início 18 de março de 2011, término 17 de junho.
Local: Rua Lúcia Santarcangelo Romano, 106, Granja Viana, Cotia.
Carga horária: 36 horas.
Valor: 3 x R$ 160,00 (material incluído).
Inscrições: mediante preenchimento de uma ficha e pagamento da 1ª parcela de R$ 160,00.
Será fornecido certificado de participação
Organizadora: Céline Lorthiois, Pedagoga, Mestre em Psicologia da Educação – PUC/SP, Especializada em Cinesiologia Psicológica – Instituto Sedes Sapientiae, Focalizadora de Danças Circulares.
Inscrições e informações: tel: 3872 3158; tel/fax: 4702 4329; cel 8254 8800.
e-mail: pedagogiaprofunda@gmail.com
site: http://www.pedagogiaprofunda.com
Propostas para uma educação integrativa e sensível.
Paulo Machado
LOCAL E DATA - CASA REDONDA, 04 E 05 DE FEVEREIRO DE 2011.
Rua Terra Roxa, 275 Carapicuíba Tel.: 4186-1252
Vir com roupas folgadas e confortáveis; trazer coisas para comer e beber.
Trazer uma caixa de lápis de cor e/ou crayon.
Confirmar inscrições nos telefones 3673-9200 (Dr. Paulo) ou 4186-0530 (Cris).
Valor: R$200,00 (ou 3 x 70,00); professores da rede pública: R$120,00.
PROGRAMAÇÃO
DIA 04, SEXTA FEIRA
PRIMEIRA PARTE : DESENVOLVIMENTO CORPORAL E SENSIBILIDADE
08:30 às 10:30 – CORPORIFICAÇÃO E CUIDADOS
- a dialética do desenvolvimento neuro-psíco-motor;
- corpo e tecnologia na infância;
- educação de crianças e pais.
10:30 às 11:00 – INTERVALO
11:00 às 12:00 – TRABALHO DE CORPO E RELAXAMENTO
12:00 às 13:00 – ALMOÇO
SEGUNDA PARTE – CONFIGURAÇÃO DOS ARQUÉTIPOS
13:00 às 14:00 – BRINCADEIRAS E RITMOS BRASILEIROS (Lucilene Silva)
14:00 às 15:30 – BRINCAR É COISA SÉRIA
- “os carreirinhos de Urucuia” (vídeo);
- brincadeiras “iniciáticas”;
- ritmo e criatividade;
- experienciando papéis e responsabilidades.
15:30 às 16:00 – INTERVALO
16:00 às 17:00 – HISTÓRIAS (Cristiana Velasco – Cris)
DIA 05, SÁBADO
TERCEIRA PARTE – “O CHAMADO DA AVENTURA”
08:30 às 10:30 – OFICINA: “CONSTRUINDO LABIRINTOS E MANDALAS”
- atividade expressiva e lúdica.
10:30 às 11:00 – INTERVALO
11:00 às 12:00 – O SUTIL NA EDUCAÇÃO NA ERA DA TECNOLOGIA E DA INFORMAÇÃO (Maria Amélia Pereira – Peo)
12:00 às 12:30 – INTERVALO
12:30 ÀS 14:00 – TEMPOS VELOZES
- alteridade e ética;
- questões sociais e infância;
- a geração “z”;
- a escola do futuro ou do presente?
13/06/2006. SP
Introdução
Este trabalho foi desenvolvido em ambulatório de convênio para pessoas idosas, às quais atendi durante dois anos.
A principal técnica utilizada foi a Calatonia em diversas partes do corpo, bem como os toques sutis.
Observando-se mudanças significativas no comportamento desses indivíduos como maior independência, superação de seus medos, ansiedades, melhora nos relacionamentos com os demais e conseguindo organizar-se melhor tomando atitudes mais adequadas.
1 – Paciente de 76 anos com câncer generalizado, nos ossos – fase terminal.
Queixa-se de dores pelo corpo e refere que foi ausente com sua família.
Feito levantamento do que gostaria no momento para sua vida.
Descreve sua vida na fazenda em que viveu e hábitos típicos da região.
Feitos trabalhos corporais – Calatonia nas diferentes áreas do corpo; Massagem Integrativa e conversas. O que diminuiu suas dores.
Conseguimos orientar a família no sentido de se aproximar mais dele, apenas permanecendo perto ou tocando suas mãos. O filho que morou no exterior aproximou-se.
A esposa proporcionou-lhe coisas que gostava: alimentos, fotos de família, músicas sertanejas.
Desta maneira o paciente lidou melhor consigo até o final de seus dias.
2 – Paciente de 57 anos vem com a queixa de síndrome de Pânico, medos da morte, de sair à rua, de dirigir o carro, desmotivado e em depressão.
Ao final de seis meses de trabalho o paciente refere diminuição dos medos, foi reduzida sua medicação, voltou a dirigir sozinho, suas consultas médicas diminuíram, sentia-se fortalecido, as dores pelo seu corpo desapareceram. E foi dada a ele a alta em terapia.
Feito todas as técnicas corporais e toques.
3 – Paciente de 61 anos, em depressão e com problema de alcoolismo. E remissão. Paciente se mantém estável.
Queixa-se de problemas físicos. Muito dependente dos filhos. Só fazia o que mandavam. Durante a terapia fez três cirurgias.
O tratamento desenvolveu-se durante seis meses.
Foram feitos muitos trabalhos na cabeça e as diferentes técnicas de relaxamento e toques (P.Sandor).
Quase no término do tratamento observa-se que vem sozinha às sessões, bem cuidada, mudou o visual, deixou de beber e superou as cirurgias.
Feitos vários trabalhos na cabeça, Jacobson e outras técnicas de relaxamento.
Paciente está mais independente e faz tarefas de casa, cuida dos netos.
4 – Paciente de 76 anos, diagnosticada com Alzheimer, apresenta-se confusa, em depressão, devido a perda do companheiro, medos de ficar só em casa, de sair sozinha,
Permaneceu um ano em terapia.
Feitos relaxamentos, Calatonia, Schultz, toques, batidinhas pelo corpo, 8 na cabeça.
Após este período a paciente começou a organizar-se, cuidar de si e da casa, passou a dormir sozinha sem empregada, a dirigir seu carro, a ir a shopping almoçar sozinha, a sair só ou com amigas em programas culturais como concertos, cinemas.
Recuperou sua memória e apresentou bem estar físico.
5 – Paciente de 59 anos, em depressão, mora com filho e nora. Apresentou vários episódios de tentativas de suicídio (tiro no coração, jogou-se na frente de caminhão).
Feito relaxamento e técnicas corporais várias partes do corpo e toques sutis.
Após 8 meses foi morar só, pois o relacionamento com a nora era difícil. No início não preparava as refeições e não saia de casa. No decorrer do trabalho começou a preparar suas refeições, a sair para caminhadas, a se relacionar com amigas e então teve alta da terapia, após avaliação do trabalho e depois de se organizar melhor.
Conclusão
Após este trabalho de abordagem corporal, especialmente com as técnicas do Prof. Sandor, utilizadas semanalmente, notou-se melhora da condição física, do raciocínio e memória, na atenção e concentração, diminuição dos medicamentos e das consultas médicas.
Ana Maria Galrão Rios
Estas são algumas regras que norteiam o nosso trabalho específico de psicoterapeutas junguianos que utilizam técnicas de trabalho corporal. Foram vividas, pensadas, inspiradas por outras instituições e colegas. Mais do que regras, estes ítens refletem nossa atitude frente ao paciente e frente à psicoterapia.
A Chegada: Nós não anunciamos, não fazemos propaganda, não convencemos ninguém a fazer terapia, não seduzimos e não vamos atrás do paciente. Isto não por orgulho ou soberba, mas porque nosso instrumento de trabalho é o comprometimento consciente do ego do paciente com o processo. Se ele não quer, se ele não investe energia nisso, não há nada a fazer. Procurar pelo terapeuta faz parte do processo de concentração de energia. A própria busca já vai preparando o campo terapêutico, gerando imagens, projeções, expectativas. A regra, então, é: a Montanha vai a Maomé. Nós, no caso, somos Maomé.
O Contrato: Nós fazemos um contrato o mais claro possível, falando sobre a frequência das sessões, pagamento, férias e interrupções, sobre o método, sobre nossa formação profissional e esclarecemos quaisquer dúvidas que o paciente possa ter a respeito do trabalho. O paciente é livre para questionar, para se submeter ou não a quaisquer dos métodos usados pelo terapeuta. O terapeuta é responsãvel por oferecer um local de trabalho adequado.
A Presença: O terapeuta esforça-se para estar presente energeticamente, emocionalmente e cognitivamente, centrado no relacionamento com o paciente, respeitando seus limites e processos internos. Não permite que suas próprias necessidades de gratificação conduzam o processo. O terapeuta é responsável pelo manejo da transferência e contratransferência, evitando agredir o paciente ou fazer demonstrações inadequadas de sabedoria. Para que possa estar presente, o terapeuta é responsável por prover a si mesmo boas condições internas e externas de trabalho. O terapeuta cuida de si e de suas necessidades como profissional e pessoa, tratando de fazer a higiene terapêutica na parte que lhe cabe, cuidando do próprio desenvolvimento e integração. O terapeuta permanece constantemente tentando reconhecer a própria sombra.
A Honestidade: O terapeuta se mantém honesto a respeito de suas qualificações e treinamento, dos limites da terapia e de sua capacidade para atender adequadamente determinados casos. Deve apresentar realisticamente ao paciente a utilidade ou necessidade de outros instrumentos e da intervenção de profissionais de áreas afim, tais como médicos psiquiatras ou neurologistas. Pertence ao âmbito da honestidade do terapeuta esclarecer o paciente, quando apropriado, a respeito de sentimentos, erros, falhas, e a respeito dos valores que norteiam sua atuação, instrínsicos ao seu trabalho e à sua visão de ser humano.
O Respeito: O terapeuta respeita os limites do paciente, tanto físicos, quanto emocionais, espirituais, intelectuais, religiosos, sociais e políticos. Cada um tem sua frequência de vibração, e não há melhor nem pior, mas coerente e “mais completo em si mesmo”. O terapeuta respeita o livre arbítrio do ego do paciente, e não condena escolhas. Gradua seu ritmo pelo ritmo do paciente. Não tem intenções pelo ou para o paciente. Ao conduzir o trabalho, principalmente o trabalho corporal, não pretende produzir efeitos específicos. A orientação virá, sempre, do Self, do processo de individuação do próprio paciente. Abordamos o corpo e a psique do paciente de um modo junguiano, ou seja, pressupondo que o inconsciente funciona de modo compensatório e se manifestará apontando os próprios caminhos de integração. Não tentamos corrigir nada, segundo nossos critérios pessoais. Se o terapeuta desconhecer ou estiver em oposição a qualquer estrutura pessoal ou social do cliente, a um ponto que prejudique a terapia, compromete-se a tomar as providências cabíveis: confrontar, aprender, fazer supervisão, mudar o contrato ou até encaminhar o paciente, encerrando a terapia.
A Continência ou A Confiança: O terapeuta estará atento aos outros relacionamentos que pode, direta ou indiretamente ter com o paciente, que influenciem ou interfiram com o relacionamento terapêutico. Geralmente evitará trabalhar com pacientes com quem tenha outras relações, sejam de emprego, familiares ou de amizade. Quando há contato social ou profissional, esclarecerá sua interferência, mantendo os limites da terapia. O terapeuta se mantém discreto a respeito de informações que receba sobre seu paciente, direta ou indiretamente, por relato ou observação pessoal. O paciente será informado se a sessão estiver sendo, de qualquer modo, registrada, e deverá concordar explicitamente com isso e com a retenção de qualquer material produzido, seu uso ou publicação. O terapeuta deve manter em mente que trabalha como uma pessoa total, com a responsabilidade consciente de seu ego, não se identificando com qualquer arquétipo de cura ou salvação. Não estando mediunicamente incorporado e nem representando qualquer poder superior, o terapeuta trabalha com sua própria consciência, estando, portanto, sujeito ao conflito moral, sendo responsável por encontrar respostas compatíveis às situações apresentadas pelo paciente, reservando-se a liberdade que permite a escolha da atuação e, portanto, o ato ético, lembrando que está sujeito tanto à lei comum quanto aos princípios orientadores evocados a partir de sua experiênca individual com o Self, dentro de um processo maior, onde há um encontro com a humanidade dentro de si e uma habilidade para arcar com a tensão gerada pelas polaridades opostas.
O terapeuta aceita a noção de livre arbítrio também para o paciente, não forçando seu desenvolvimento em nenhuma direção: a escolha é livre, mesmo que antagonize as direções da personalidade mais ampla do paciente. A vontade do ego pode, muitas vezes, se sobrepor à do Self. As consequências serão responsabilidade do paciente, nunca encaradas como um castigo, mas um retorno da energia assim direcionada.
O Poder: O terapeuta usa sua posição, enquanto figura de poder para o paciente, para favorecer o desenvolvimento deste e de sua autonomia. Nós não exploramos o paciente de qualquer forma: financeiramente, emocionalmente, sexualmente ou praticamente. Encorajamos a consciência do paciente e trabalhamos em prol do fortalecimento de seu ego e auto-estima. Não usamos o paciente para nosso engrandecimento ou prazer pessoal, em nenhuma circunstância. O paciente é livre para ir e vir, para interromper ou encerrar o processo terapêutico quando lhe for conveniente, sem que tentemos retê-lo por qualquer motivo pessoal. A independência responsável do paciente será sempre incentivada.
A Inspiração: Dentro da nossa linguagem, o terapeuta encaminha o processo sob a orientação do Terceiro Ponto, fazendo contato e trabalhando a partir dele. O terapeuta mantém em mente que sempre há um ponto de vista superior a partir do qual a situação pode ser compreendida. Nós não nos esquecemos que, além do ego, como orientador dos processos, há o Self. Aprendemos em nosso treinamento de psicoterapeutas corporais que a presença do Terceiro Ponto é a condição necessária para o apropriado relacionamento terapêutico. Entendemos o Terceiro Ponto como uma “projeção do Self”, cuja presença evita a inflação do ego do terapeuta, que poderia facilmente atribuir aos seus próprios poderes os efeitos de trabalho sutil. O Terceiro Ponto circula e reorganiza a energia que flui entre ambos, paciente e terapeuta. O primeiro ponto corresponde ao próprio sujeito, o segundo ao objeto percebido, e o terceiro ao campo entre e acima destes, não perceptível pelos sentidos, mas pelos olhos da alma (psique), correspondendo a um ponto virtual projetado no espaço pelo terapeuta, que assim entra em contato consciente com a realidade do Self, permitindo que esta energia se manifeste no trabalho terapêutico. Evocar o Terceiro Ponto significa sacrificar o ego em prol da energia do Self, buscando aquilo que Jung chama de “desejável ponto intermediário da personalidade, algo inefável que se coloca entre os opostos, ou melhor que os une, como resultado do conflito, ou o produto da tensão energética, que leva ao nascimento da personalidade, um passo profundamente individual em direção à próxima fase. ( CW vol 7 par 230)
Nós sabemos que as inquietudes do ego se desfazem e se transformam na profundidade e eternidade do Self. Nós tentamos trabalhar procurando reconhecer e identificar o destino único e irreprodutível de cada ser humano e colaborar, na medida das possibilidades humanas do terapeuta e das técnicas da terapia, para a mais plena realização deste trajeto estabelecido pelas Forças Superiores.
bibliografia:
1. Código de Ética do CRP
2. Código de Ética do EABP ( european association of body psichotherapy)
3. Subtle touch ethics – congresso Isseeem, 2003; Leda Perillo Seixas, Anita Ribeiro e Ana Rios
4. Ajuda e palpites de muitos amigos: Augusto, Betty, Elci e Arnaldo, o povo de longe e o de perto.
A consciência pessoal tem se ampliado tanto que podemos dizer: do lado de dentro já sabemos mais que sobre a própria casa, o bairro, a acidade. Já ultrapassamos a consciência de país e já estamos chegando na de Continente. Consciência continental.
Não apenas com os fundamentos da Psicologia de C. G. Jung, mas também com todo o conhecimento tecnológico e científico que podemos absorver na consciência, faz com que eu possa conhecer as células do meu corpo. Seu funcionamento e relação, interferir na função até chegando ao transplante. Os exames de petscan dão uma percepção corporal nunca vista: quase se vê o movimento das células funcionado. Então é como se pudéssemos conhecer o nosso território muito bem.
O Tao Te King diz que devemos cuidar bem do nosso povo. Dos nossos povos, do ponto de vista da ONU, se pensarmos grande. E outra leitura é cuidar bem dos nossos povos: células. E cuidar da nossa essência, nossa energia e nosso espírito.
Quanto mais pessoas forem conscientes dos níveis possíveis – internos e externos – mais próximo a uma mudança de qualidade poderá ocorrer naquele nível.
Tem havido na Terra uma mudança de qualidade do pensar e viver: a ecologia. Negócios estão virando “Verdes”. Partidos políticos, reciclagens, e limpezas nas relações: não mais se agredirá impunemente. Hoje em dia, existe a delegacia da mulher, Lei Maria da Penha, estatuto da criança e do adolescente, e muitos projetos executando estas disposições coletivas (as leis).
Um projeto que acabe com a fome, em casa e no planeta é um bom projeto. É mais um jeito de arrumar a casa. E a consciência tem que ir aumentando. Se minha liberdade vai até onde começa a liberdade do outro, as redes sociais têm sido um espaço feliz e profícuo para o exercício desta liberdade cotidiana. E como a gente pode falar (escrever, ainda) com um chinês, usando o tradutor Google, que vai melhorando cada vez mais, a conversa no planeta já é uma realidade.
É com o exercício destas sincronicidades que a consciência do planeta vai se desenvolvendo.
E quando o milionésimo círculo se completar, haverá mudanças que transformarão o planeta. As previsões apocalípticas que devastariam o planeta já foram transformadas. O planeta poderá ascender na consciência solar. Poderá se tornar um planeta sagrado. O trabalho de consciência amorosa que foi desenvolvido desde os séculos passados permitiu esta ajuda completa de todos os níveis de consciência do Universo. Isto tem sido descrito pelos canalizadores. Muitas pessoas estão se voltando para relações amorosas, cada vez mais, e fazendo o trabalho de se rever nisto. Os processos de consciência são então ativados. Ir fora de si, executar algo e refletir sobre o resultado. Isto lapida, aprimora e transforma a pedra filosofal dos alquimistas, isto aprimora o processo de individuação. Isso permite convivência mais consciente entre os seres humanos, e portanto, maiores possibilidades integrativas.
SP, 7/09/10
ENCOUNTERS WITH THE SOUL
Active Imagination as Developed by C. G. Jung
Barbara Hannah
Chiron Publications
Wilmette, Illinois
Originally published: Santa Monica, Cal, Sigo Press, 1981
ANNA MARJULA
A influência curativa da imaginação ativa num caso específico de neurose
Introdução
Há mais ou menos dez anos, um texto intitulado “A Influência Curativa da Imaginação Ativa num Caso Específico de Neurose”, de Anna Marjula, foi impresso privadamente[1], e, desde então, tenho recebido muitos pedidos para torná-lo mais acessível ao púbico em geral. Jung teve contato com este texto sobre imaginação ativa e gostou muito dele. Chegou a prometer à autora que o incluiria num volume que pretendia publicar, junto com documentos semelhantes. Jung, entretanto, morreu antes de poder realizar este projeto. Anna, naturalmente, ficou desapontada, mas eu não podia publicar seu manuscrito naquela época, porque Jung me havia dito que não deveria ser de forma alguma publicado sozinho.
Na época eu concordei, e com a ajuda dos clubes e institutos junguianos, o texto foi impresso e circulou privadamente, em condições semelhantes às dos seminários junguianos. As cópias só eram vendidas a quem já tinha conhecimento prévio da psicologia junguiana. Penso atualmente que Jung não objetaria à sua publicação neste volume, acompanhado de muitos outros exemplos de imaginação ativa. Trata-se certamente de um exemplo incomumente bom, e seria uma grande perda se desaparecesse.
Estou apresentando a primeira parte do texto original, a qual consiste principalmente de conversas com a Grande Mãe. A segunda parte do texto consiste de desenhos que Anna Marjula fez quando iniciou sua análise com Toni Wolff. Os desenhos, portanto, foram uma antecipação da sua imaginação ativa, e seriam inteiramente incompreensíveis isoladamente. As interpretações que aparecem no livreto foram feitas por Anna algum tempo depois de suas conversas com a Grande Mãe. Por serem interpretações conscientes, não têm nenhuma relação direta com a imaginação ativa, e não houve nenhuma tentativa para aproximar as duas partes. Pareceu-me melhor, portanto, omitir essa parte do texto, e substituí-la por um resumo de alguns encontros com o Grande Espírito, vivenciados por Anna depois que o texto foi impresso. Estes se encaixam melhor no nosso material; entretanto, nunca foram publicados antes, nem privadamente. Além disso, encurtei minha introdução ao trabalho dela porque toda a primeira parte era sobre o tema genérico da imaginação ativa, o qual já abordamos na introdução geral deste livro.
Os modos de fazer imaginação ativa são extremamente variados e individuais[2], mas os métodos visuais e auditivos são os mais comuns. Anna Marjula praticava ambos. No método visual, o qual utilizou primeiro, permanecia com o que via nas figuras, algumas das quais apareceram na segunda parte do seu manuscrito. Evidentemente, todo o material está condensado e encurtado, mas a fantasia da dançarina da corda bamba é um bom exemplo do método visual em movimento, por assim dizer. Entretanto, foi o método auditivo, registrado em conversas, o que mais a ajudou. Com ele, Anna atingiu um grau incomumente alto de imaginação ativa em tais conversas – um grau que exige uma quantidade não usual de trabalho, concentração, honestidade, coragem e autocrítica para ser alcançado.
Anna nunca foi inclinada a permitir-se fantasiar; pelo contrário, teve grande dificuldade para superar suas resistências para fazer imaginação ativa e suportar os conteúdos estranhos produzidos pelo inconsciente. Podemos ver que muitos desses conteúdos não são, de modo algum, inofensivos; neste sentido, entende-se por que tantas pessoas têm medo da imaginação ativa. Mas os conteúdos estavam presentes desde o começo – o mais perigoso apareceu (e, na verdade, nem foi reconhecido por ela nesta época) nas primeiras figuras. Naturalmente, quanto menos vistos eram, mais perigosos realmente se tornavam. Podia-se perceber que eram idéias alarmantes e megalomaníacas no trabalho, por exemplo, mas que evanesciam como fumaça se alguma tentativa era feita para torná-las conscientes: imediatamente acontecia uma enantiodromia, e perigosos sentimentos de inferioridade tomavam o seu lugar.
Os psiquiatras certamente reconhecerão temas e idéias que levaram muitos casos ao hospital psiquiátrico, mas isto parece acrescentar valor ao material. O modo como a Grande Mãe algumas vezes lida com este material explosivo mostra que o próprio inconsciente possui o antídoto para seu veneno. Como a própria Anna francamente admite, ela tinha freqüentemente medo da insanidade, e o suicídio da sua irmã apontava para a possibilidade de uma fragilidade herdada neste aspecto. Entretanto, por muitos anos – como ela mesma descreve –, seu próprio animus regularmente destruiu qualquer progresso conseguido e fez o que pôde para apoiar sua tendência ao pânico. Embora eu nunca tivesse achado que ela poderia tornar-se insana, principalmente por causa do seu trabalho criativo com a música e por um tipo de coragem inata, tranqüilizadora, admito ter duvidado durante muito tempo da possibilidade de resgatá-la das garras do seu animus.[3] No seu caso, isso só poderia ser conseguido pelo processo de individuação. Logo tornou-se claro que este era seu destino.
Graças à franqueza de Anna e à sua inabalável honestidade individual, posso também ser igualmente franca e admitir livremente que, mesmo que tenha ficado claro desde o começo que ela era uma pessoa valiosa, e que poderia ser melhor ainda, ela foi um caso bastante cansativo e, por muitos anos, desencorajador. Seu complexo paterno negativo, reforçado por suas resistências ao seu analista freudiano, tornaram impraticável que trabalhasse com um homem.[4] Jung tinha o maior respeito por seus dons e sempre manteve um olhar cuidadoso sobre sua análise; entretanto, ele insistiu que o trabalho principal deveria ser feito por uma mulher. Anna não era suíça, e passava a maior parte do tempo em seu próprio país; por isso, o tratamento se prolongou por muitos anos.
Nos primeiros anos, a música era seu maior apoio, e naturalmente fiz tudo o que pude para encorajá-la em sua profissão. Mas desde o começo o animus tinha uma atitude ambivalente a este respeito (veja o relato da própria Anna sobre a sua “grande visão”). Ele tentava boicotá-la cada vez mais, até mesmo persuadindo-a, às vezes, de que ela deveria jogar tudo fora. Mas a primeira evidência tranqüilizadora de que existia um poder funcionando na psique de Anna, que era mais forte do que o animus, ocorreu em relação a um dos piores ataques de animus. Anna estava em um dos humores que ela descrevia quando, perdendo a esperança de algum dia ser “curada”, recorreu a mim como sua analista, assim como a Jung, e decidiu desistir da profissão que ainda era uma conditio sine qua non absoluta, naquele tempo, para a continuidade da sua vida. Ninguém poderia abalar sua decisão e ela partiu para seu próprio país mais possuída pelo animus do que nunca. Esta foi a única vez em que eu realmente me desesperei com o caso. Quando ela partiu, senti que a batalha estava perdida.
Poucas semanas depois, entretanto, recebi uma carta dela dizendo que uma coisa extraordinária tinha acontecido. Toda sua correspondência tinha sido encaminhada para Zurique, mas quando ela voltou ao seu apartamento em seu próprio país, encontrou uma única carta na sua caixa de correio, que tinha sido inadvertidamente jogada ali algumas semanas antes. Esta carta continha uma proposta de trabalho tão tentadora que ela sentiu que não poderia recusá-la. “Mas eu teria recusado em Zurique”, ela escreveu, “pois lá eu estava bem determinada.”
Este incidente mudou minha atitude a respeito do caso. Vi que estava só e ficando exausta e não conseguindo nada de bom, tentando diretamente ajudar Anna a salvar-se do seu animus tirânico. Mas, perguntei-me, o que foi que salvou a situação na última hora, através de um erro do carteiro? Evidentemente, eu não poderia encontrar nenhuma explicação racional para minha pergunta, mas decidi arriscar a hipótese de que havia alguma coisa mais forte do que o animus trabalhando na psique de Anna, e que esta “coisa” não pretendia permitir a destruição do seu processo de individuação. No caso de Anna, este não foi um evento sincrônico isolado. Um exemplo ainda mais impressionante ocorreu durante uma outra fase negativa, quando Anna, brava de novo por não estar “curada”, virou-se contra tudo o que tivesse a ver com a psicologia junguiana. Então aconteceu um estranho acidente. Enquanto caminhava pela praia, foi atingida na cabeça por uma bola, o que resultou em um longo tratamento hospitalar. Durante essa doença, ela finalmente percebeu que era inútil tentar escapar da tentativa de tornar-se inteira, pois, se ela o fizesse, o “objeto redondo” (símbolo por excelência da inteireza), passaria a persegui-la[5].
Jung freqüentemente me dizia que as pessoas raramente integram aquilo que é dito por outra pessoa, mesmo que por um analista por quem possam ter uma forte transferência. “São as coisas que lhes são dadas pelo próprio inconsciente que causam uma impressão duradoura”, dizia. Anna Marjula me ensinou a verdade deste ensinamento mais do que qualquer outra pessoa ou coisa. Nos primeiros anos da sua análise, absolutamente nada causou uma impressão duradoura. Mesmo que houvesse um progresso aparente por um período considerável, mais cedo ou mais tarde o animus conseguia destruir tudo, como ela mesma descrevia claramente. E a transferência era um fator muito pouco confiável – como ela também dizia – porque, por mais calorosa que Anna se sentisse em relação à sua analista, o animus manteve todos os trunfos durante muitos anos, e jogava com eles em todos os momentos críticos, transformando confiança em desconfiança e amor em raiva.
Foi com Toni Wolff, sua primeira analista junguiana, que Anna Marjula desenhou as estranhas figuras que aparecem na segunda parte do seu livreto. Elas já eram precursoras da sua imaginação ativa, nas quais os conteúdos que jorravam para fora do seu inconsciente eram fielmente registrados em palavras. Jung sempre nos ensinou a ser muito econômicos em nossas interpretações na imaginação ativa, porque é muito fácil parar o fluxo ou influenciar os elementos que deveriam tomar seu próprio curso. Esta série de pinturas mostra a sabedoria desta atitude de modo particularmente claro. Como a própria Anna agora percebe, a interpretação não teria ajudado naquela época. Além disso, considerando o material explosivo que a própria Anna encontrou muito mais tarde nas figuras, poderia ter desencadeado um desastre. Do mesmo modo, o esforço para compreender as figuras – que ela fez aproximadamente quinze anos mais tarde – teria sido irremediavelmente prejudicado por qualquer interpretação externa. Tais idéias só poderiam ser aceitas se viessem do seu próprio inconsciente.
Alguns meses depois de ter deixado Toni Wolff, Anna me procurou e ficou comigo – com longas pausas enquanto estava em seu próprio país ou doente – até 1952, quando fui para a América por alguns meses. Isso foi uma grande sorte para Anna, porque então ela esteve com Emma Jung, a quem todo o crédito deve ser dado por ter mudado os rumos do caso. Aproximando-se dele pela primeira vez, Emma Jung imediatamente percebeu que o animus estava governando Anna através da sua “grande visão”, espetando-a pela depreciação desta como se fosse apenas uma “cambaleante opinião do animus”. Antes que ele tivesse tempo de se recuperar, ela o colocou de lado com sua sugestão de cessar quaisquer novas conversas com o animus por enquanto (como Anna vinha tentando comigo), e dedicar-se, em vez disso, à imaginação ativa diretamente com “algum arquétipo feminino positivo”, como a Grande Mãe. Eu dificilmente teria pensado em tal abordagem, pois, embora figuras arquetípicas femininas tenham sido muito úteis para mim na minha própria imaginação ativa, até aquela época sempre o haviam feito silenciosamente. Somente as figuras masculinas ou a sombra pessoal propunham-se a falar. Menciono isso porque mostra como nunca podemos conduzir um analisando na imaginação ativa além do ponto até onde fomos.
Na minha experiência, é bem incomum que uma figura feminina superior como a Grande Mãe do material de Anna Marjula disponha-se a diálogos tão extensos. (Deparei-me com só mais um caso assim, no qual também havia um animus forte.) Quase me parecia que a Grande Mãe, claramente um aspecto do Self, havia se cansado dos nosso esforços desajeitados e decidido tomar as rédeas da situação. Seja como for, quando Anna voltou para mim depois que Emma Jung morreu, a análise estava, definitivamente, nas mãos da Grande Mãe.
Isto não significa que uma analista humana tenha se tornado supérflua. Anna ainda tinha um certo medo de tais conversas: ela achava sua Grande Mãe tão surpreendente e desconcertante às vezes, que, por muitos anos, dedicava-se apenas às conversas enquanto estava na Suíça e eu estava disponível depois que se completavam. Isto foi muito sensato da parte dela, pois – embora eu ache que as conversas vão convencer o leitor de que nenhum ser humano seria tão sábio e perspicaz quanto a Grande Mãe mostrou ser – ela estava, evidentemente, em outra realidade e nem sempre consciente das condições e limitações humanas. Assim, um acompanhante humano é absolutamente indispensável em mergulhos profundos tais como os que Anna empreendeu no inconsciente. Como disse Jung uma vez, precisamos do calor do rebanho humano quando encaramos as coisas estranhas que o inconsciente produz.
Quero mencionar que não tive nenhuma influência no documento escrito por Anna Marjula. Um dia eu disse que ela deveria garantir que suas conversas com a Grande Mãe fossem preservadas. Ela respondeu que quando morresse, cuidaria para que não fossem destruídas, mas enviadas para mim. Tive poucas informações a esse respeito por muitos anos, até que ela me trouxe esse manuscrito, o qual, além de um pouco condensado, quase não sofreu alterações. Admito que eu teria preferido uma forma mais científica, com notas de rodapé, referências, amplificações, e assim por diante, mas quaisquer sugestões serviam apenas para confundir Anna e a perturbar. Então, exceto por alguns mínimos detalhes, decidi deixá-lo intocado, para permanecer ou desaparecer enquanto um documento humano. Mas é científico em um sentido importante: é completamente honesto, e posso testemunhar que nada nele foi distorcido, alterado ou “melhorado”.
Ao ler as interpretações da própria Anna, o leitor precisa saber que ela é um tipo sentimento. O pensamento é sua função inferior, embora seja necessariamente usado em suas interpretações. Portanto, geralmente tem aquele peculiar caráter evidente e inflexível que é característico deste tipo.
Anna escreveu seu relato no papel de uma conferencista imaginária, para distanciar-se mais do seu material. Suas interpretações, entretanto, têm um toque subjetivo: são as interpretações que a ajudaram, e que se encaixaram em seu caso particular. Mas nenhuma conclusão geral para outros casos deve ser tirada a partir delas, pois seu valor é especificamente individual. Elas testemunham a verdade da convicção de Jung de que as pessoas pegam apenas o essencial dos seus próprios inconscientes. O inconsciente de Anna a ensinou desta maneira, mas o seu ou o meu nos ensinaria de outra, na forma que se encaixasse em nosso padrão individual. Sendo assim, não quero nivelar este sabor individual através de qualquer interpretação generalizada.
O leitor deve manter em mente principalmente o ângulo subjetivo quando Anna está falando de Deus: ela sempre se refere à imagem de Deus em sua própria alma. Quando ela fala de Deus, significa sua própria imagem subjetiva desta figura. Ela mesma explica este ponto, mas se restarem quaisquer mal-entendidos a respeito desse ponto, posso imaginar o leitor ficando justificadamente chocado por algumas das coisas que Anna diz a respeito de Deus, Cristo ou Satã.
Para dar ao leitor uma maior compreensão do trauma psicológico e pessoal que oprimia Anna em sua luta para tornar-se mais consciente e superar a neurose, coloco a seguir um resumo da sua história de caso, que será revelada com maiores detalhes durante o estudo do caso.
Durante a primeira infância e adolescência, Anna, uma criança inteligente e prendada, sofreu violações da sua feminilidade por um pai totalmente neurótico e inconsciente. Sofreu também as mortes prematuras, não naturais, de toda a sua família: primeiro sua mãe, depois seu irmão mais novo, sua irmã e, mais tarde, seu pai.
Suas experiências com seu pai a deixaram tímida, insegura e incapaz de ter encontros normais com homens jovens enquanto amadurecia. Infelizmente, a isto se seguiu um amor mal recebido por seu analista freudiano. Viveu com esta perturbação até a metade da sua vida, quando começou análise junguiana na Suíça.
Concluindo, acho que devemos ser gratos a Anna por permitir a publicação deste material – uma generosidade que é comum em sua profissão, uma vez que pessoas criativas em todas as artes são constantemente treinadas a expor suas reações mais íntimas ao olhar crítico do público.
Apresentação da história do caso
por Anna Marjula
Nas páginas seguintes, tentei descrever o desenvolvimento gradual do processo de individuação na minha própria vida. Escolhi relatar o material do meu caso em forma de palestra, porque assim teria a oportunidade de objetivar “a paciente” e poderia também me identificar com um conferencista imaginário.
A imaginação ativa, de acordo com o método desenvolvido por C.G.Jung, e seu efeito curativo na minha neurose são particularmente destacados neste ensaio.
Quero expressar meus agradecimentos a Barbara Hannah, Marie-Louise von Franz, à falecida Marian Bayes, e a Mary Elliot por terem me ajudado a preparar este texto para publicação.
I. Introdução ao caso
Estas palestras pretendem demonstrar o resultado positivo que uma certa paciente obteve através da sua genuína tentativa de tornar consciente e de assimilar partes sombrias da sua psique, partes que haviam sido esquecidas, ou reprimidas, ou que nunca haviam sido conhecidas por ela. Pretendem também, o que é ainda mais essencial, mostrar a influência curativa experimentada por ela através do seu contato ativo e intencional com o pano de fundo arquetípico de toda vida humana, o contato com algumas das grandes forças inconscientes que estão contidas na eterna e coletiva fonte da vida, que alimentam, ativam e influenciam todos os movimentos da humanidade ou, em menor escala, de cada indivíduo em sua vida cotidiana.
A forma escolhida pela paciente para tentar tal contato foi o que Jung chama de imaginação ativa. Ela primeiramente tentou deixar os impulsos inconscientes se expressarem em desenhos, e depois manteve várias conversas com muitas figuras do inconsciente. Como seu caso de neurose era obstinado, e como já tinha tentado vários tipos de tratamentos antes de recorrer ao Dr. Jung, vale a pena observar algumas destas conversas, as quais, no final, trouxeram-lhe a paz de espírito que havia buscado e pela qual havia lutado durante toda a sua vida.
Para começar, teremos uma introdução à sua história e à sua neurose. Em seguida, um sumário dos seus diálogos com as figuras arquetípicas, no qual tentarei mostrar a crescente influência que estes diálogos tiveram sobre a paciente, e, conseqüentemente, sobre o processo de cura da sua alma.
História da paciente
A paciente nasceu na Europa, perto do final do século passado. Seu pai era advogado. A família consistia do pai, mãe, duas meninas e um menino. A paciente era a segunda filha. Era uma criança alerta, com boas aptidões escolares, e especialmente dotada para a poesia e para a música. Perdeu sua mãe aos treze anos e o irmão aos vinte. Muitos anos mais tarde sua irmã cometeu suicídio. A morte do pai ocorreu quando tinha quarenta e sete anos, e assim ela ficou sendo o único membro sobrevivente da família. Eis, em resumo, sua história familiar. Permaneceu solteira e tornou-se música profissional. Sua história psicológica interna foi muito influenciada pelo caráter dominador de seu pai (que se desenvolveu em um complexo paterno negativo) e pela morte prematura da mãe.
A paciente foi uma criança nervosa, que sofria de insônia e falta de apetite. Quando muito jovem tinha comportamento de introvertida. Escrevia poesia e compunha canções, geralmente no banheiro; não mostrava a ninguém tais tesouros, exceto às suas bonecas. Era, entretanto, cheia de vida, uma criança bem feliz, boa nos esportes, nos jogos, e popular entre suas companheiras. Foi um impacto terrível para a menina perder sua querida mãe e isto não permitiu que seu caráter continuasse a se desenvolver harmonicamente. Cresceu de forma precoce em seu mundo interno, mas extremamente tímida no externo, especialmente com os meninos. Os meninos causavam-lhe pânico e, por sua vez, não gostavam dela, o que feria terrivelmente seu orgulho. Tornou-se neurótica, o que ninguém pareceu perceber. Por causa de sua timidez, a angústia e os sentimentos de inferioridade ficaram fechados dentro dela, como coisas a serem mantidas em segredo. Sentia muita vergonha desta inferioridade, a qual tentava compensar com um bom desempenho na escola e na música. Lutava com todas as suas forças para ser sempre a melhor aluna, o que sempre conseguia. Sua ambição cresceu de modo desfavorável. Ainda assim, apesar de a morte da mãe ter sido um evento fatal para ela na infância, a eclosão da sua neurose foi, de algum modo, retida por um período de oito anos. Entretanto, quando tinha vinte e um anos, a neurose irrompeu. Foi anunciada por uma Visão, a qual mais tarde tornou-se o ponto central de sua neurose.
Sua Grande Visão
Quando a paciente teve esta Visão, muito importante para ela, estava se preparando para um exame de concertista de piano. A ambição a havia forçado a trabalhar demasiadamente e a superestimar a importância do sucesso ou do fracasso nos exames. Extremamente ávida pelo triunfo artístico e com um medo terrível de estragar suas chances de sucesso por fobia de palco, chegou a uma situação de extrema tensão nervosa. Na noite anterior ao exame, o inconsciente a inundou e produziu uma “Grande Visão” ou “Anunciação”, a seguir:
Uma Voz disse-lhe para sacrificar a ambição durante seu exame, estando igualmente disposta e pronta a aceitar tanto o fracasso quanto o sucesso. Depois de uma dura batalha interna, a paciente sinceramente prometeu obedecer a este comando. Então, sua disposição para sofrer uma possível derrota colocou-a num tipo de êxtase religioso. Neste êxtase, a Voz revelou-lhe que não era sua vocação na vida tornar-se, ela mesma, uma pessoa famosa. Sua real vocação era tornar-se mãe de um homem genial. Para ser capaz de cumprir tal vocação, ela teria que sacrificar seus desejos normais a respeito do amor e do casamento e procurar alguém adequado para ser o pai de um gênio. Com este homem ela deveria conceber uma criança, num coito totalmente isento de luxúria. Se ela conseguisse ser bem-sucedida em não ter nenhuma sensação durante a concepção, e somente se tal condição fosse cumprida, então sua criança provar-se-ia o gênio ao qual ela havia sido escolhida para dar à luz. Se acontecesse de o pai ser um homem casado, ela deveria superar seus preconceitos e ter um filho ilegítimo.
Para a garota, esta mensagem estava cheia de mana (qualidade numinosa). Sentia que era sagrada. Foi uma experiência religiosa, um comando que tinha que ser obedecido, que nunca poderia ser deixado de lado ou esquecido. Tornou-se a crise de sua vida, com a qual era muito difícil entrar num acordo. Teremos que lidar longamente com este evento interno, porque teve um grande significado para ela. Seu passado e futuro se encontraram, por assim dizer, neste ponto culminante, pois esta visão não se originou do nada. Foi preparada por eventos na sua infância e meninice e por desenvolvimentos em seu caráter, os quais, juntos, impediram um desdobramento normal da sua sexualidade. Por conta disso tudo, a voz autoritária que falou tão alto na Anunciação havia sido sempre bem alimentada em seu inconsciente. Seus poderes cresceram até atingir proporções gigantescas, até que fosse capaz de inundar o ego naquela noite antes do exame, porque este estava enfraquecido justamente, então, pela grande tensão nervosa.
As primeiras reações da garota à sua Visão foram maravilhosas. Enquanto durou o êxtase, viveu num plano mais elevado do que qualquer outro que já houvesse experimentado. Passou no exame brilhantemente e sua timidez desapareceu totalmente. Sentia-se muito feliz, absolutamente não neurótica, e esta felicidade aumentava o mana da voz. Mas o êxtase não poderia durar para sempre; foi morrendo aos poucos, na vida comum, cotidiana, principalmente porque o futuro pai daquela criança genial não apareceu. Aos poucos, ela voltou ao estado de moça comum, entendendo isso como uma derrota. Sua timidez aumentou. Sentia-se doente e miserável, exaurida pelo suspense interno. Teve problemas de saúde. Mas de alguma forma conseguiu manter a cabeça fora da água por mais três anos. Entretanto, como estava agora naquela idade na qual as outras garotas encontram um marido e se casam, a natureza começou a afirmar-se e levou a infeliz garota a uma série de tentativas malsucedidas de casos amorosos. Tais fracassos teriam sido difíceis de agüentar até por uma jovem normal. Para a nossa paciente, cuja segurança já estava minada, significaram um colapso total. Aos vinte e quatro anos foi hospitalizada, doente, e depois disso foi fazer análise com um freudiano.
Análise freudiana
O analista freudiano era um médico jovem, de trinta anos, somente seis anos mais velho que a paciente. Tinha sido casado, mas estava divorciado e vivia sozinho. Era um homem agradável e muito interessado por música. A garota gostou dele imensamente e, como era de se esperar, apaixonou-se e quis se casar com ele. Não parecia haver nada contra o casamento, e seus perfis ter-se-iam harmonizado, mas o analista preferiu outra moça, com quem se casou. Repeliu os sentimentos da paciente chamando-os de mera transferência paterna, e não sabia nem como conduzir a transferência na direção de um desenvolvimento aceitável e suportável pela paciente.
Talvez a melhor solução tivesse sido interromper o tratamento, mas a moça estava fascinada demais e também tinha um caráter demasiadamente fraco para deixá-lo. O analista subestimou os sentimentos da paciente por ele e continuou a análise porque tinha esperança de curá-la. O método freudiano não deixou de ter algum resultado. Alguns sintomas desapareceram e uma certa quantidade de energia foi restaurada. Além disso, à parte do tratamento, a moça amadureceu através das profundidades do seu próprio amor e da tristeza por não ter sido correspondida. Se o médico tivesse, ao menos, mostrado um pouquinho de sentimento e compreensão, poderia ter obtido o resultado que desejava. Mas sendo um freudiano convicto, reprimia totalmente a idéia de que poderia ter uma contratransferência. Então os dois regrediram juntos até algo que poderíamos chamar de perversão sexual, como veremos mais tarde.
A moça demorou onze anos para se separar deste fascínio, e só conseguiu abandonar esse amor porque no final o analista comportou-se realmente mal e foi rude com ela. Então, a raiva e o ódio emergiram nela de modo suficiente para causar uma ruptura final. Insultando sua feminilidade, ele evocou seu orgulho. Ela se sentiria sempre grata por isso, tinha sido a melhor coisa que ele poderia ter feito por ela.
Os anos entre a análise freudiana e a junguiana
A paciente tinha agora trinta e três anos. Naturalmente, sua neurose não estava curada. Embora estivesse determinada, muito humildemente, a viver sua vida da melhor forma possível, sua alma não estava em paz. Na verdade, havia, de certo modo, tornando-se conhecida no mundo musical, mas sabia o tempo todo que, embora o trabalho que havia conquistado consistisse de inspirações valiosas, carecia da sólida base do trabalho duro e regular que exigiria mais do que o seu prejudicado estado de saúde poderia suportar.
A outra possibilidade, mais feminina, a de encontrar um bom marido e se casar, mostrou-se ainda mais remota, e a outra opção possível, a de um caso amoroso satisfatório, era igualmente inalcançável. Existia um tabu sexual que não havia sido curado pela análise freudiana. Além disso, outras forças se mostraram em ação dentro dela, forças que pareciam conduzi-la a direções desconhecidas, pois sempre que um importante sucesso musical ou um caso amoroso satisfatório parecia possível, alguma coisa externa – tal como o suicídio de sua irmã, a eclosão da guerra, a morte de um parceiro – colocava-se no caminho da realização e mostrava-se um obstáculo insuperável. Obviamente, uma satisfação concreta não era permitida em seu caso. Tal fato psicológico tornou-se evidente para ela, que lidou com ele ao longo da sua vida da melhor maneira que pôde.
Os primeiros anos de análise junguiana
Dezoito anos mais tarde, aos cinqüenta e um anos, consultou C.G.Jung por causa dos seus problemas. Seguindo seu conselho, começou análise com uma de suas alunas proeminentes, uma mulher, Toni Wolff, e subseqüentemente com outras duas analistas, também mulheres. O próprio Jung supervisionou o desenrolar da análise.
Foi extremamente difícil chegar aos dados genuínos, porque tinha sido o animus a figura interna que havia ajudado a paciente a ir vivendo mais ou menos, durante aqueles difíceis anos terríveis. Este animus era capaz de exercer essa grande influência sobre a paciente por causa de todas as possibilidades que abria para ela no seu trabalho com a música. Enquanto uma mulher não estiver consciente desta figura de animus em sua psique, ele é um mestre poderoso demais, capaz de fasciná-la a ponto de possuí-la completamente. No caso desta paciente, o animus era uma figura ambivalente, e o fascínio que exercia sobre ela – tão útil quanto destrutivo – era quase completo. Embora suas inspirações musicais não trouxessem uma solução real para o problema dela – a saber, o que ela deveria fazer do resto da sua vida –, tais inspirações freqüentemente (e de forma muito benéfica), significavam uma saída temporária da crise e do desespero. Quando o peso de seus problemas fazia com que se sentisse desesperada, o animus e sua música pareciam ser seu único apoio. Por isso, ela não queria desagradá-lo tornando-se consciente de qualquer outro papel que ele possivelmente estivesse desempenhando em sua vida. Na verdade, ela não poderia fazer isso, pois tinha medo de enlouquecer se o fizesse. E a partir desse seu grande medo, podemos facilmente concluir que o “outro” papel que o animus estava tendo em sua vida era muito negativo. Conseqüentemente, não foi de modo algum uma tarefa fácil para ela, em sua análise, encarar essa figura sobrepujante.
Outra figura interna, a sombra, a contraparte escura do ego consciente estava quase totalmente reprimida pelo caráter obstinado, orgulhoso e presunçoso da paciente. Como Jung nos explicou, é extremamente importante que sejamos tão conscientes quanto possível da nossa sombra, pois, se não se tiver consciência do animus (ou a anima) e da sombra, então o ego enfrentará uma batalha desigual contra dois oponentes, e provavelmente não será suficientemente forte para vencer. No caso desta paciente, estes dois, animus e sombra, haviam “contraído núpcias” há muito tempo no inconsciente e eram então inseparáveis. Cometiam todo os tipos de pecados contra a paciente que, nesta época, era incapaz de ter um verdadeiro insight a respeito dos seus próprios problemas.
Mas ela era persistente e tenaz: não desistiu da análise. Sua analista aconselhou-a a tentar a imaginação ativa. Então, fez alguns desenhos espontâneos. Alguns eram muito interessantes e ela gostava daquela atividade. Fascinava-a. No entanto, tais desenhos não trouxeram nenhuma melhora genuína. Um determinado ponto nas profundezas da sua alma continuava intocado, e até ali ela não o tinha visto.
A paciente fazia um resumo do material de cada hora analítica e, assim, podia rever todo o tratamento mais tarde. Quando relia suas notas, surpreendia-se ao ver o quanto seus sonhos e suas interpretações pareciam favoráveis. O mesmo poderia realmente ser dito de todo o tratamento. Neste estágio inicial, sua análise parecia estar dando certo, mas, de alguma forma, ela nunca se beneficiava dela. Seu animus tinha o hábito de escapar diante de qualquer resultado favorável antes que a paciente o integrasse. E ele sempre a impressionava com suas opiniões. Era uma figura poderosa demais para que pudesse resistir. Entretanto, apesar do desespero, ela não cedia completamente a ele. O método junguiano a havia impressionado ainda mais do que as objeções feitas pelo animus. E ela foi em frente.
Um dia, discutiu com sua analista (a senhora Jung) o episódio da visão que havia tido na juventude (A Voz e a mensagem). A respeito da segunda parte desta visão (seu futuro destino feminino), a analista sugeriu que toda esta idéia poderia ser uma desconcertante opinião do animus! Observou que um animus pode ser um mau conselheiro em assuntos amorosos femininos, e que, na verdade, a palavra “amor” não aparecia absolutamente na mensagem da voz misteriosa. E quão completamente não-femininos os conteúdos daquela mensagem realmente eram! Tão pouco femininos, de fato, que dificilmente poderiam ser atribuídos a qualquer outra figura a não ser o animus! Esta interpretação “encontrou eco” na paciente, a qual conseguiu finalmente mudar sua atitude em relação à autoridade da Voz. Quebrou o encanto. Considerar as observações da Voz como opiniões de animus foi, daí por diante, um salva-vidas que diminuiu o poder que o animus tinha sobre ela. Ela foi muito longe, a ponto de quase eliminar toda aquela história, e sentiu-se muito aliviada ao fazê-lo.
Num estágio muito posterior, o tom religioso da Visão teve que ser recuperado, pois, vistos de um nível mais elevado, o mana e a autoridade da Voz pareciam justificados, mas nas regiões inferiores e mais primitivas da mente estavam completamente deslocados e, quando considerados literalmente, beiravam perigosamente à insanidade. A paciente ficou sem chegar perto deste nível mais elevado ainda por algum tempo, e a primeira e mais urgente coisa a fazer era, com toda certeza, livrar-se desta compulsiva e devastadora idéia do animus. A analista, então, aconselhou-a a romper o contato com o animus o mais completamente possível, porque este realmente a estava tratando mal. A analista depois sugeriu que seria melhor se a paciente tentasse uma aproximação com algum arquétipo feminino positivo, como, por exemplo, a Grande Mãe. Referia-se àquela figura que os junguianos costumam chamar de “mãe ctônica”, mas a paciente, não sabendo nada sobre tal figura, evocou sua própria Grande Mãe pessoal, como veremos a seguir.
Ela ficou profundamente impressionada com a sugestão de sua analista, e seguiu seu conselho, que funcionou muito favoravelmente, pois tinha um complexo materno altamente positivo. A morte prematura de sua mãe havia acontecido antes que tivesse criticado de algum modo aquele ser profundamente amado. E a aura de santidade que envolve a morte transformou a mãe humana numa figura quase arquetípica: sábia, amorosa e confiável. Foi sem esforço que a paciente fez uma transferência materna positiva com relação à real figura materna arquetípica, contida no inconsciente coletivo. Além do mais, tal transferência teve o suporte e auxílio do crescente amor da paciente por sua maternal analista (a senhora Jung), com quem tinha uma relação particularmente próxima. Como conseqüência, chegou a atribuir à Grande Mãe arquetípica a autoridade, sabedoria e poder do Self, a figura mais dominante, que representa o símbolo da totalidade de todas as entidades psíquicas. Assim revestida, a Grande Mãe da nossa paciente pôde ser temporariamente percebida como um adequado paralelo feminino de Deus, uma substituta mais acessível para conversas do que teria sido um Deus masculino, porque esta paciente tinha um complexo paterno negativo, e um animus perigoso e não confiável. Quando sua analista esclareceu este ponto, a paciente não o rejeitou, mas continuou a chamar sua conselheira interna de “Grande Mãe”, somente para sentir-se mais próxima a ela. De outro modo, não teria conseguido aproximar-se do Self com a mente tão aberta e ousada.
Agora que o caso já foi consideravelmente introduzido, estamos chegando ao ponto. Tentaremos agora chegar a um insight sobre o crescimento interno ou individuação que resultou das conversas que a paciente teve com sua Grande Mãe. Depois de cada conversa, consideraremos as reações do animus (até o ponto em que nos é possível conhecê-las), prestando especial atenção à influência relativamente nítida que ambos, a Grande Mãe e o animus, tinham sobre a paciente. É importante notar como a voz do animus, no começo tão dominante, é silenciada pouco a pouco, e como este poderoso governante desce da sua elevada posição no final, e começa a desenvolver uma força mais positiva e, de fato, mais potente. A evolução daquilo que no começo parecia ser um animus negativo é paralela e idêntica ao processo de cura na alma da paciente. Como sua individuação ocorreu num processo longo e detalhado, o material precisou ser consideravelmente resumido antes de ser apresentado. Na realidade, foram escolhidos pontos principais, e detalhes de importância talvez menor tiveram de ser omitidos.
II. Conversa Inicial
A primeira conversa com a Grande Mãe aconteceu logo depois daquele dia importante, mencionado acima, quando a paciente pôde entender a Visão que havia tido na juventude como uma idéia do animus. Começou seu contato com a Grande Mãe de um jeito meio hesitante, como se ainda tivesse dificuldade em afastar-se do seu animus, mesmo que agora já o reconhecesse claramente como aquele que a atormentava. Tentou fazer contato com a Grande Mãe da seguinte maneira:
Primeira Conversa com a Grande Mãe
Paciente: Minha Grande Mãe, eu gostaria de me aproximar e de falar com você, mas não a vejo com clareza. Você está como que velada. Quando eu tento remover o seu véu, ele então encobre o animus e o torna invisível para mim, o que parece perigoso. Por que é assim?
Grande Mãe: O animus atirou provavelmente seu véu sobre mim no dia em que foi desmascarado pela sua analista. Fez isso porque tem poder sobre você enquanto eu permanecer invisível. Fale comigo apesar de eu estar velada, e, enquanto isso, fique de olho nele.
Paciente: Você pode me ajudar a educá-lo?
Grande Mãe: Precisamos primeiro educar você; ele virá depois.
Paciente: Tenho sentimentos de inferioridade por ser uma mulher solteira. Ainda desejo imensamente viver minha vida não vivida.
Grande Mãe: Na realidade é assim: toda a vida é vivida. Você viveu sua neurose. Enquanto isso, eu vivi por procuração a vida que estava oculta atrás da sua neurose. Você não sabia disso, e portanto sente-se como se tivesse perdido a sua vida. Mas sua vida é vivida – por mim! Nada pode sair totalmente da psique. Assim que você estiver suficientemente madura para receber seu tesouro, eu o darei a você. A neurose é sempre menor do que o que se esconde atrás dela. Você não poderia suportar aquela coisa escondida e a reprimiu. Mas fortaleceu sua coragem enquanto suportou passivamente sua neurose por anos e anos. Compare isso a uma balança: quando a coragem e a força estão reunidas e colocadas em um dos pratos – podemos dizer sobre o prato passivo? – então o outro, o prato ativo, pode subir. Então você pode apossar-se de toda a sua vida não vivida, que eu vivi temporariamente por você. Nada foi perdido: está tudo lá. Tente retomá-la pouco a pouco. Deste modo, você ainda será capaz de amadurecer como uma mulher com a vida realizada.
Paciente: Mas como posso vir a ser uma mulher com uma vida realizada, se não tenho uma sexualidade funcionando normalmente?
Grande Mãe: Não é a função sexual que deve ser o seu ponto de partida, mas os sentimentos que possam conduzir a tal direção, dos quais a função sexual pode, no final, ser uma expressão.
Paciente: Como posso recuperar tais sentimentos? Eu os perdi há muito tempo.
Grande Mãe: Você os reprimiu. Ele podem ser trocados por coragem.
Paciente: Você sempre menciona coragem. Eu não acho que coragem tenha sido o que faltou em mim.
Grande Mãe: Você certamente tem coragem, mas a de tipo perigoso. Seu animus brinca com sua coragem, e como você está possuída pelo animus e não pode suportar sua força, sua coragem torna-se passiva demais. Seu animus gosta de empurrar você para a miséria psíquica. Tal miséria você sofre corajosamente, mas somente porque vê nela uma oportunidade de sentir-se como uma heroína. Esta é sua compensação por suas sensações neuróticas de inferioridade. Este tipo de coragem não funciona direito. É passivo demais.
Paciente: A culpa é do animus.
Grande Mãe: Sim, mas em última análise, é você a responsável pelo animus. Nos anos de juventude você foi alto demais. Então, sua neurose foi necessária. Agora você não deve odiar o animus e a sombra com tanta amargura. O jogo deles com você foi monstruoso, mas necessário. Você provocou isto em você por não estar de modo nenhum consciente das forças escuras dentro de você.
Paciente: Sinto-me envergonhada.
Grande Mãe: Sinta-se responsável! Deve ser este o caminho para ativar a coragem!
Quando a paciente leu esta conversa para sua analista, esta ficou muito impressionada e a encorajou calorosamente a continuar seu diálogo com sua Grande Mãe, o que a paciente fez entusiasticamente, durante muito tempo. Seu animus, entretanto, que adorava seu poder sobre ela, e que não tinha a mínima intenção de abrir mão dele, não perdia nenhuma chance de deixar claro como as coisas pareciam ruins, como seus esforços eram supérfluos, até mesmo o grande mal que tais conversas faziam para sua saúde. A paciente e o animus envolveram-se numa batalha tediosa e exaustiva, da qual somente alguns detalhes serão mostrados aqui. Deve ser suficiente observar que, durante muito tempo depois disso, a paciente começava todas as suas conversas com a Grande Mãe com reclamações a respeito de sentir-se mal e miserável, cheia de dúvidas, descrença e com episódios de desespero. Tais conversas foram tagarelices pretensiosas e neuróticas, indignas de serem repetidas aqui.
A Grande Mãe pacientemente respondia que descrença e dúvida pertenciam à sombra, que havia feito uma parceria com o animus no inconsciente, onde, por assim dizer, ambos conspiravam contra a paciente, divertindo-se muito com isso. Se a paciente conseguisse integrar estas partes sombrias e se sentir responsável por seu próprio desespero, então o animus poderia ir se tornando menos poderoso, dizia a Grande Mãe. Mas, por enquanto, a paciente estava inconsciente demais da sua sombra para discriminar suas características, e muito possuída por seu animus para enfrentar suas opiniões. Permaneceu como sua vítima ainda por muito tempo. As palavras da Grande Mãe eram imediatamente atacadas aos gritos pelas opiniões do animus, nas quais era mais fácil acreditar. A paciente teve o seguinte sonho importante neste ponto, em meio ao seu sofrimento.
Sonho
A paciente se aproxima de um prédio grande. Uma freira sai de lá, dá-lhe boas vindas e lhe dá um rosário com apenas algumas contas. Cada conta é uma oração. A freira diz para ela ir enfiando mais contas naquele rosário, contas pretas, que se tornarão brilhantes e radiantes assim que ela as enfiar ali.
Interpretação do sonho
A paciente fez associações com as contas, ou orações. Disse que elas se chamavam humildade, pobreza, e jejum com o coração. Humildade fala por si mesma. Associou pobreza às seguintes palavras do poeta Rilke, em seu Stundenbuch : “Armut ist ein Glanz aus Innen”( “Pobreza é uma incandescência que vem de dentro”). “Jejuar com o coração” foi recomendado por Meister Eckhart como um caminho para conseguir vida espiritual. Depois da amplificação, a freira foi interpretada como representando a mulher espiritual, a qual a paciente (que era, entretanto, Protestante), deveria desenvolver em si mesma, e aceitar como destino. As contas pretas eram partes da sombra que perderiam sua escuridão quando fossem enfiadas por ela em seu pequeno fio de consciência.
Depois de um sonho tão claro, parecia quase inacreditável que a paciente não pudesse mudar sua atitude definitivamente. Ela pôde fazer isso por um tempo – estava impressionada –, mas não durou muito. A linguagem excessivamente clara usada pela analista ou pela Grande Mãe geralmente provocava o animus, que acrescentava imediatamente seus comentários drásticos. Nossa paciente nunca conseguia deixar de se identificar com ele e não acreditar em cada uma de suas palavras.
Desta vez, para dizimar a influência daquela freira que havia aparecido em cena, o próximo truque do animus tinha que ser muito sutil. O animus captou a tendência da paciente para a devoção religiosa. Disse-lhe para aceitar seu destino, seu sofrimento e sua neurose de bom grado, e até mesmo para conseguir satisfação sexual da sua prontidão religiosa para suportar o que ela poderia chamar de “coito cruel de Deus” com ela! Aqui sua analista interferiu, explicando a diferença entre obediência a Deus e obediência ao animus. A analista mostrou-lhe sua tendência ao masoquismo, estando o masoquismo relacionado à extrema feminilidade, assim como o sadismo pode acompanhar a extrema masculinidade. A paciente pôde perceber sua própria tendência ao masoquismo, o que levou à seguinte discussão com a Grande Mãe.
Segunda conversa com a Grande Mãe
Paciente: Minha Grande Mãe, se eu ao menos pudesse chegar a uma aceitação positiva do destino, em vez de acalentar esta coragem passiva e tola que me obriga a suportar a neurose e a sofrer satisfação masoquista.
Grande Mãe: Encare seu masoquismo de frente e veja a satisfação moral que tira dele, a convicção fortalecedora de que você é uma heroína, bebendo de bom grado infinitos cálices de amargura. Você extrai disto a admiração do ego e um suposto vigor. Se puder sacrificar todas essas posses que lhe parecem tão valiosas, então as forças positivas poderão entrar em ação.
Paciente: Minha vida foi construída sobre o sofrimento heroicamente suportado. Este é meu apoio e minha justificativa. É o que me mantém em movimento. Se tiver que desistir disto, vou ficar muito fraca.
Grande Mãe: Você já está muito fraca como está, só que não sabe disso.
Paciente: É correto supor que meu desejo de grandeza me proporcionou uma grande neurose? Ou seja, se eu não posso ser grande na vida real, então, pelo menos, posso ser grande no sofrimento neurótico?
Grande Mãe: Você nunca foi capaz de sacrificar sua megalomania, ser somente uma mulher simples, comum. Então você escolheu a neurose e a possibilidade de uma grandeza passiva. Seu sofrimento neurótico foi grande, mas estéril. Mais uma vez – o masoquismo é um poder perigoso. Quando o sofrimento fica intenso, o masoquismo se identifica com seu oposto: o sadismo. Você se tortura. Pode reconhecer o sadismo em si mesma?
Paciente: Eu sempre o chamei de animus.
Grande Mãe: Olhe para esta sua neurose de ambição. Vamos chamá-la por um grande nome: heroísmo sadomasoquista. Podemos chamá-la também de medo covarde, porque você é insípida demais para se tornar consciente da sua sombra convencida. Troque seu heroísmo negativo por alguma humildade positiva. A primeira prova de grandeza real é apropriar-se das forças escuras da própria alma e humildemente sentir-se responsável por elas. Se você puder fazer isso, estará a meu serviço, em vez de servir ao Sr. Animus. A real grandeza consiste no sacrifício do ego.
A paciente agora tinha algo sobre o que meditar! Fez isso por um tempo, e depois esqueceu tudo, pois o animus também havia meditado a respeito de algo, um novo plano para recuperar o território perdido. E revelou-se aparentemente mais astucioso que seus oponentes, pois o que aconteceu foi o seguinte: a paciente adoeceu. Como conseqüência, os anos subseqüentes foram preenchidos por tratamentos médicos contra doenças que os médicos eram incapazes de curar. No fundo do seu coração, a paciente tinha muita vergonha de ser neurótica e havia sempre tentado ocultar seus sintomas. Assim, a doença física, trazendo um diagnóstico estabelecido pela área médica, foi bem-vinda para ela. Provou para si mesma que suas queixas não eram imaginárias, que ela não era tão neurótica quanto todos achavam. Na verdade, libertou-a de grande parte da sua fragilidade nervosa – ou pelo menos assim ela pensou. E seu animus a instigava freqüentemente. Assim, os médicos não conseguiam curá-la. Tempo e dinheiro foram gastos em vão. Ela teve que voltar aos métodos psicológicos.
Sua doença havia causado um adiamento; entretanto, ficou claro que o processo analítico não havia sido estragado pela interrupção. A paciente estava mais pronta para a análise depois dos anos aparentemente desperdiçados em tratamentos médicos, hospitais, enfermeiras e assim por diante. No final, ela desafiou seu animus a ter uma conversa séria com ela, da qual os principais pontos serão apresentados. Depois desta conversa, ficou de certa forma intimidada, e encontrou seu caminho de volta para a Grande Mãe.
Conversa com o animus (fragmento)
Paciente: Se minha doença são opiniões do animus, então você deve ser capaz de me explicar qual é a idéia subjacente a ela.
Animus: Você quer sofrer, não quer? Não quer desempenhar o papel de heroína masoquista? Eu lhe providencio a chace para fazê-lo.
Paciente: Talvez eu fosse assim, mas mudei meu plano de ação. Qual é o seu?
Animus: O meu é desempenhar o marido para você. Você se prostitui comigo quando está doente.
Paciente: Escolha suas palavras com mais cuidado, por favor.
Animus: Eu procuro a doença para você, para que possa experimentar ser passiva, desamparada, subjugada. Ao longo da doença, sou seu marido. Eu me expressei com delicadeza suficiente para seus ouvidos melindrosos? A Grande Visão da sua juventude (como você a chama) ordenava o coito sem luxúria sexual. Agora, esta é a razão pela qual eu apareço como doença. Na sua doença, você está comigo exatamente como uma mulher durante um intercurso sexual, mas sem sensações luxuriosas. Percebe?
Paciente: O que eu vejo é que você é um diabo! Que vergonha!… Mas, sr. Diabo, eu não quero absolutamente suas sugestões de doença, nem quero suas propostas de intercurso. O que eu quero adquirir é aceitação do destino. Através disso eu vou me sentir feminina em relação a Deus, e este é meu objetivo. Está claro para você? Minha feminilidade está abrigada em Deus. E desta maneira eu quero exorcizá-lo do meu corpo, espirito do mal!
Símbolos religiosos
Depois desta cena dramática com o animus, a paciente experimentou uma mudança para melhor, uma mudança psíquica. A mudança consistiu em um interesse crescente por símbolos religiosos, um interesse que era favorável, uma vez que a afastava de problemas egóicos e dificuldades corporais. Sentia-se menos infeliz. Além disso, estava grata por sentir-se muito mais apoiada pela simpatia claramente demonstrada pela analista por seus esforços.
Um dos símbolos religiosos que a interessou muito foi o símbolo da quaternidade e o lugar de Satã nela. Em anos anteriores, ela havia feito desenhos que representavam um quatérnio que continha Satã. Estes desenhos eram muito obscuros para ela naquela época e a analista não explicou seu significado. Mais tarde, tornou-se claro: eram antecipações. Tais antecipações, ou não entendidas ou malentendidas, geralmente parecem inúteis, mas, na realidade, exercem uma influência na pessoa para quem aparecem. Funcionam como um tipo de motor que as mantém em movimento. Deste modo, são importantes.
A idéia de perceber Deus como uma quaternidade em vez de uma trindade não era, por si mesma, difícil para a paciente. Ela tinha sido educada na filosofia de Spinoza, e Spinoza expressa a idéia de que Deus deveria estar incompleto se cada grau de valor, do mais inferior ao mais elevado, não estivesse presente Nele. Tal conceito de Spinoza já havia convencido há muito tempo a paciente de que o mal é parte de Deus. Spinoza acrescenta que os seres humanos chamam de “bem” o que é bom para eles, e de mal o que é ruim para eles, e concorda com este ponto de vista. Mas, declara, devemos estar conscientes da probabilidade de que os pontos de vista de Deus a respeito do bem e do mal não sejam idênticos à nossa própria concepção. Assim, Spinoza restaurou mais ou menos, aos olhos da paciente, o conceito de que Deus é irrepreensível, porque seu grande Plano é incompreensível em termos humanos.
Talvez não seja intenção de Jung chamar Deus de irrepreensível, pelo menos não no sentido de perfeito. Mas na idéia de restaurar a completude de Deus por dar a Satã seu lugar no céu, Jung e Spinoza podem se encontrar. Ou pelo menos assim pareceu à paciente, e ela não teve grande dificuldade neste ponto. Entretanto, a paciente estava agora perturbada a respeito deste assunto. O motivo da sua perturbação era uma enorme inflação por parte do seu animus, da qual estava ainda inconsciente. Sentia confusão interna e até mesmo atordoamento; assim, perguntou à Grande Mãe sobre Satã e a quaternidade. A Grande Mãe respondeu num nível exclusivamente subjetivo, como se segue.
Terceira conversa com a Grande Mãe
Grande Mãe: No seu caso, o animus está emaranhado com Satã. Isto é muito elevado para ele. Ele é seu animus; o diabo é uma parte de Deus. Seu animus não pode se colocar na quaternidade. Ele está com uma tremenda inflação, se pensa que pode.
Fantasia
Enquanto ouvia as palavras da Grande Mãe, a paciente teve uma visão, ou uma fantasia passiva:
Ela viu um enorme diabo com asas, que voou para o alto, para cumprir seu destino celeste na quaternidade. E ouviu um coro de anjos cantando um hino de louvor a Satã, porque este estava prestes a recuperar o lugar que havia sido deixado vazio desde sua queda. Os anjos deram-lhe boas vindas no céu, com seu canto glorioso de “Ave! Ave!” elevando-se em ondas de som harmonioso.
Interpretação
É notável como a fusão, ou confusão, entre Satã e o animus se desemaranhou no exato momento em que a Grande Mãe aludiu a isso. Neste momento, Satã libertou-se de seu aprisionamento em uma alma humana e pôde voar para o alto. E o animus da paciente, livre da sua inflação demoníaca, sentiu que perdeu sua característica e fugiu. Tudo isso é uma antecipação que acontece na alma da paciente. Só pode ser integrada muito depois, e somente pouco a pouco, mas, por enquanto, teve uma influência sobre o ego da paciente. Agora ficou claro para ela que não poderia se apropriar do seu animus olhando para cima das nuvens. Agora, pelo menos, ela realmente começou a entender que há somente uma maneira de quebrar um estado de possessão pelo animus, ou seja, tornar-se consciente da própria sombra e conter esta figura escura totalmente dentro de si mesma. Ou, citando o símbolo que a freira de seu sonho usou, ela tinha que enfiar as contas pretas no seu próprio fio e, ao fazer isso, acrescentar mais preces ao rosário. Vendo isto com muita clareza agora, ela teve a seguinte conversa com a Grande Mãe:
Quarta conversa com a Grande Mãe
Paciente: Eu quero olhar para meus “pecados”. Claro que eu sei que pecados não são somente más ações, mas também a negligência dos deveres. Sinto-me completamente culpada e carregada de inferioridade na presença dos homens, porque eu não lhes dei o consolo e o prazer que eles podem receber de uma mulher. Mas agora, se é meu destino permanecer solteira, se meu tipo é o da freira, o da mulher espiritual, e se eu devo desenvolver esta mulher espiritual dentro de mim como um objetivo, como então pode ser que minhas falhas e deficiências como mulher sejam ambos, minha culpa e meu destino?
Grande Mãe: Se você tivesse, realmente, aceitado sua condição de solteira como um destino, você não teria tantos sentimentos de inferioridade, tão terrivelmente torturantes. O desejo de viver o próprio destino não é percebido como uma inferioridade; de fato, é exatamente o contrário. Há uma diferença enorme entre cumprir ativamente o próprio destino e desejar aceitá-lo passivamente. Você ainda não atingiu esta realização ativa. Mas o problema é extremamente difícil, porque, mesmo quando você tiver atingido a realização ativa, é possível que uma pequena quantidade de culpa e inferioridade não possam ser eliminadas. É mais ou menos assim: uma mulher solteira e sem filhos peca contra a natureza. Se for seu destino pecar contra a natureza desta maneira, então haverá nela um conflito entre natureza e destino. O destino tem prioridade. Conseqüentemente, uma parte do conflito tem que ser sofrido, porque não poderá ser solucionado. Mas você ainda não atingiu este ponto. Sua aceitação do destino ainda não foi realizada, e nem é suficientemente ativa ainda.
Evidentemente, o conteúdo desta conversa foi discutido com a analista, que comentou: “Já que a natureza e o destino querem de você propósitos diferentes, e como este conflito não pode ser solucionado, você deve tentar olhá-lo de um ponto de vista mais elevado, exatamente como quando temos que olhar para baixo do topo de um desfiladeiro, de onde podemos ver os dois lados da montanha”.
A paciente não estava bem no topo deste desfiladeiro nem podia ver as coisas de um ponto de vista mais elevado. E contou isso à Grande Mãe.
Quinta conversa com a Grande Mãe
Paciente: É difícil não deixar o animus emergir, porque ele está do lado da natureza e contra o destino, assim como a sombra.
Grande Mãe: Seu problema é um problema de mulher, e o animus é um mau conselheiro aqui. Não leve em conta suas opiniões! A sombra está do lado da natureza, é claro. Mas, mais do que tudo, é você quem está do lado da natureza. É você quem não consegue sacrificar a sexualidade como seu objetivo de vida. Na verdade, você nem ao mesmo quer a sexualidade por ela mesma, mas somente como uma ajuda, para se livrar dos sentimentos de inferioridade que a aborrecem, e pelo seu desejo de ser como as outras mulheres.
Paciente: Eu gostaria de saber o que o destino quer que eu faça. O destino sempre me pareceu ser algo alheio e hostil à minha própria natureza, algo que Deus me impõe a partir de fora. Se eu fosse capaz de ver que este destino, meu destino, sempre esteve dentro de mim, que pertence a mim muito pessoalmente, talvez eu fosse capaz de vivê-lo conscientemente e não somente aceitá-lo passivamente.
Grande Mãe: Seu destino nasceu em você como um germe. Temos que viver para desenvolver um tal germe. Ou então ele se desenvolve sozinho enquanto vivemos. Este desdobrar do destino é o objetivo da vida. Enquanto estiver inconsciente disto, o destino parece impor-se a você a partir de fora. Tente tornar-se consciente deste processo germinativo dentro de você mesma. No mesmo grau em que conseguir tornar-se consciente dele, neste mesmo grau ou medida você se unirá a Deus. Deus é o seu destino.
Paciente: Existe diferença entre Destino com D maiúsculo e simplesmente meu próprio destino?
Grande Mãe: Tanto quanto existe uma diferença entre Deus – e o Deus dentro de você. Podemos colocar da seguinte maneira: quando você vive inconscientemente, consegue meramente realizar o seu destino. É o que os animais fazem. Mas quando torna-se consciente da realização do destino enquanto o objetivo da sua vida, então é permitido que o veja como Destino – com D maiúsculo. No caso ideal, recebemos um destino – com d minúsculo – das mãos de Deus, para que o desdobremos e o devolvamos a Ele como Destino – com D maiúsculo. Assim fazendo, criamos Deus tanto quanto Deus nos cria. A vida de Cristo é o exemplo extremo disto.
Paciente: Cristo criou Deus quando conscientemente escolheu cumprir seu Destino; a saber, morrer na cruz.
Querida Grande Mãe, posso entender o que você quer dizer, mas não posso sentir que isso esteja dentro de mim, ou que esteja emergindo das minhas próprias profundezas. Tenho um medo terrível de reprimir as coisas ou os sentimentos que sinto espontaneamente. Tais sentimentos são, antes de tudo, minhas necessidades enquanto mulher, que clamam por realização.
Grande Mãe: Você acha que Cristo não teve que reprimir nada em Si mesmo, quando escolheu o caminho da cruz? Não reprima as suas coisas até o ponto de ficar inconsciente delas, mas diga não para elas, quando você tiver que dizer não.
Paciente : Isso é ainda mais difícil.
Grande Mãe: Claro que é. Por causa de puro Freudianismo, você negligenciou a vida do espírito em si mesma. Isto também é repressão, e, no seu caso, ainda mais destrutiva do que a repressão sexual, porque a vida espiritual deve conter mais valores para você e até estar mais de acordo com sua natureza, do que a assim-chamada vida natural. Sua própria natureza não busca somente realização biológica; a “freira” em você tem nostalgia de Deus. Tente vê-la e dar-lhe uma chance.
Paciente: É estranho que eu nunca tenha me sentido culpada por haver negligenciado uma vida espiritual.
Grande Mãe: Então sinta-se agora. Sinta-se culpada em relação à “freira” em você, em relação a mim, e, se quiser dizer desta forma, em relação a Deus. Mas não se sinta culpada em relação aos seres humanos masculinos, nem inferior às mulheres casadas.
Paciente: E se eu não conseguir me livrar desses sentimentos?
Grande Mãe: Sofra-os, se precisar, mas diga a si mesma que são idéias do animus!
Como o animus se manteve em silêncio a respeito das últimas importantes revelações, a paciente não se perturbou enquanto meditava sobre elas. Percebeu que estas revelações relativas ao cumprimento do destino lhe tinham sido mostradas assim que ela tinha se proposto a “olhar para seus pecados” (como expressou para si mesma seu desejo de assimilar aspectos da sombra). Manteve isto em mente para o futuro.
Segue-se aqui sua resposta para a Grande Mãe, depois de ter pensado sobre o assunto.
Sexta conversa com a Grande Mãe
Paciente: Porque quero desenvolver a mulher espiritual dentro de mim e porque você me disse que nada pode sair totalmente da psique, tentei encontrar um equivalente espiritual para as partes da minha alma que estão supostamente mortas. Posso entender que uma atitude receptiva feminina em relação a Deus ou em relação ao destino sejam um equivalente espiritual para a receptividade feminina que se expressa no ato do amor? E pode a maternidade espiritual encontrar expressão em meu desejo de cumprir meu destino, para colocá-lo nas mãos de Deus como uma coisa nascida de mim, depois de tê-lo acalentado em minha alma? Tive uma inspiração de como posso perceber a vida espiritual em geral. Vi o que, neste mundo, chamamos de vida real, como um símbolo da Vida Real – com V e R maiúsculos – sendo esta última a vida de Deus dentro de nós, ou aquela parte de Deus que vive nossas vidas em nós. Quando eu percebo a vida desta maneira, não parece importante se estou gostando ou sofrendo a minha assim-chamada vida terrena, estando numa realidade mais elevada o que eu puder experimentar da Vida de Deus.
Desta vez a Grande Mãe não respondeu, mas meses mais tarde ela e a paciente retomaram a questão, que foi então formulada da seguinte maneira:
Sétima Conversa com a Grande Mãe
Paciente: Como dois opostos podem se unir na psique?
Grande Mãe: Um deus pode unir os opostos; você não. No seu caso, freira e mãe (destino e natureza) não puderam ser unidos. O destino triunfou e a mãe em você foi sacrificada. Quando a sacrificou, você pecou contra sua natureza pessoal, mas cumpriu o que se chama de natureza humana. É tarefa exclusiva e essencial da criatura humana sofrer a tensão entre os opostos que não podem se unir. Seu erro foi não se sentir responsável, culpada e arrependida em relação à sua natureza pessoal. Em vez disso, sentiu-se neurótica. Vamos examinar este paradoxo. Não conseguiu evitar a ordem para sacrificar a mãe em você. Mesmo assim, deveria se sentir responsável, culpada e cheia de remorsos quanto à sua natureza pessoal, ou ficar neurótica. Aqui chegamos a porque dizemos que o homem é pecador por natureza. Você entende? O homem é forçado a pecar porque não pode unir opostos incompatíveis. Peca por um lado, ou por outro. E assim cumpre seu destino humano.
Estas últimas conversas aconteceram, supostamente, acima do nível das interrupções do animus. Notem que ele permaneceu em silêncio.
O confronto com problemas deste tipo teve, é claro, uma influência educativa não somente sobre o animus, mas também sobre o ego consciente da paciente. Em primeiro lugar, eles a ajudaram a se livrar da supervalorizada influência que a sexualidade (e a falta dela) tinha recebido em seus pensamentos como resultado da análise freudiana. Enquanto ela considerava a realização sexual como o único objetivo possível da vida terrena, não podia se desenvolver espiritualmente. Agora as coisas começavam a se mostrar um pouco diferentes do modo como ela as via antes, e gradualmente ela pôde encontrar um novo significado na sua vida passada, assim como no futuro. Foi uma grande ajuda conseguir ainda que um leve insight do significado eventualmente simbólico da vida. Do mesmo modo, esse insight ajudou-a a interpretar simbolicamente o conteúdo dos seus sonhos e visões, e assim desenvolver um contato mais abrangente com a sua própria vida interior. A porta para seu desenvolvimento posterior tinha sido aberta, e o progresso em tornar-se consciente também significou um avanço na cura.
III – Interpretação da Grande Visão nos vários níveis da alma
Na análise junguiana, sentimos repetidamente que chegamos aos mesmos lugares, mas a cada vez num nível mais elevado, como Jung o define – o caminho para a individuação é como uma espiral ascendente na qual subimos.
Sem dúvida, a paciente agora havia atingido uma curva mais alta da espiral, e seus pontos de vista mais elevados permitiram que ela tivesse uma visão mais ampla. Assim, tornou-se capaz de atribuir um significado simbólico ao curioso fenômeno da sua Grande Visão. Junto com sua analista[6], chegou a uma interpretação que era agora de fato totalmente aceitável para a totalidade do seu ser.
Realização literal ou simbólica?
Podemos dividir a Grande Visão da paciente em duas partes: a primeira lida com seus exames e com seu medo de palco, e a segunda anuncia seu verdadeiro objetivo na vida. A primeira parte sempre foi clara; podia ser encarada literalmente, e na época de seus exames havia causado uma disposição relaxada e receptiva para aceitar as coisas, independentemente de como se apresentassem. Até aqui, ela tinha entendido sua Visão de uma forma maravilhosa. Mas a segunda parte, que podemos chamar de Anunciação, era muito mais complexa. Aqui, obviamente, fazia-se necessário uma realização simbólica.
Naqueles tempos de juventude, quando experimentou a Visão, a paciente nunca tinha ouvido falar de símbolos psicológicos e, sem dúvida, concluiu que as palavras deveriam ser entendidas literalmente. Ainda assim, era normal o suficiente para perceber qualquer tentativa de realização literal como um perigo que poderia, até mesmo, empurrá-la para além dos limites da sanidade. Ela nunca tentou isso na realidade, mas ficou emaranhada numa confusão e queria apaixonadamente livrar-se de tudo. Infelizmente, não conseguia fazê-lo por causa do aspecto numinoso que a havia esmagado. Sendo um tipo sentimento introvertido com uma intuição muito boa, suas funções diferenciadas poderiam tê-la mantido mais ou menos em segurança em seu caminho. Mas a garota não percebeu os abismos colocados por sua sombra inconsciente e, infelizmente, escolheu o animus como seu piloto.
A Influência recíproca entre sombra e animus
As partes positivas da sombra da paciente que chamamos de instintos femininos haviam sido feridas em sua primeira infância e no começo da sua meninice[7]. Quando os instintos são feridos ou restringidos, não podem funcionar bem, e causam dor, acima de tudo. Portanto, a paciente os havia reprimido. Mas quando os instintos estão reprimidos, seu crescimento é bloqueado. Como conseqüência, a paciente perdeu a referência que os instintos normalmente desenvolvidos poderiam ter-lhe dado. Para compreender a mensagem da misteriosa Voz, teve de fazê-lo sem a ajuda de uma sombra normalmente funcional, uma ajuda que poderia tê-la mantido com os dois pés no chão. Em vez disso, o animus delegou a si o papel de mestre dos conteúdos da Anunciação. Teve poder para fazer isso porque ele e a sombra agiam juntos contra a paciente. Seus instintos feridos mobilizavam sentimentos de inferioridade, que buscavam algum tipo de compensação. Esse mecanismo havia dado à menina uma ambição imensa. Foi só durante a tensão daqueles dias de exame que ela começou a duvidar se tinha ou não os dons suficientes para satisfazer as demandas da sua ambição. E foi este o momento tão esperado pela sombra e pelo animus para arremessarem sobre ela o que diziam que seria uma excelente solução para a paciente. De fato, o que seria mais simples e fácil do que desviar o peso do conflito inteiro para um filho altamente dotado, e assim liberá-la para retirar-se, com honra e sem dor, no legítimo orgulho maternal? Na verdade, isto seria uma maravilhosa prova da engenhosidade deste par!
Conforme acima mencionado, a segunda parte da Visão pode ser considerada como uma ordem para a realização literal (e este seria o nível inferior), ou para a realização simbólica (o nível superior). O animus havia roubado o nível inferior para seu próprio proveito, pois a eliminação do amor e da excitação sexual em qualquer futuro relacionamento entre nossa garota e um parceiro masculino seria puro nonsense, e uma tal idéia só poderia vir do animus. Pode até ser que ele tenha mudado as palavras da voz um pouquinho – oh, não muito –, apenas um pequeno toque (só o suficiente para que ele fosse capaz de conseguir o que queria!). Sobre isso nada se sabe. É somente uma sugestão, mas estaria de acordo com a natureza dele, e o fato é que a Visão não foi escrita senão muitos anos depois. Num nível mais elevado da alma, a Anunciação tinha um significado totalmente diferente, conforme veremos. Mas antes de abandonarmos as idéias primitivas do animus, devemos deixar claro que o animus tem dois níveis ou aspectos diferentes na sua natureza, dentro dele mesmo.
Dois aspectos do animus
Em seu aspecto original, ele é meramente o animus pessoal, aquela fração de masculinidade não desenvolvida contida numa alma feminina. Neste aspecto, ele varia de malicioso e provocativo a demoniacamente destrutivo, mas tudo isso no âmbito pessoal. Pode ser uma figura positiva mesmo nesta esfera pessoal, e freqüentemente parece ser, especialmente hoje em dia, quando as mulheres trabalham em funções de homens que não poderiam realizar somente com sua feminilidade. No nível mais elevado, o vemos como sendo um Grande Espírito. Cada inspiração feminina importante deve ser atribuída a esta figura. A maior parte do tempo ele é altamente positivo. Se for negativo nesta esfera superior, então será negativo num plano impessoal. E neste caso será um grande espírito maligno em todos os graus, até o próprio Satã.
Na vida desta moça podemos vê-lo trabalhando em quase todos os aspectos. Já ouvimos seus gracejos espirituosos e provocativos em algumas das conversas, e na esfera mais elevada, devemos dar-lhe crédito por ter sido quem inspirou seu trabalho musical criativo. Na segunda parte da Visão, ele destrói com uma única tacada sua futura carreira (dizendo que não era sua vocação) e seu potencial enquanto mulher (excluindo reações normais do relacionamento sexual). Mas no nível mais elevado, de novo, é o fator mediador que, no fim, faz com que ela perceba o significado simbólico daquilo que a Voz anunciou para ela.
Uma fantasia de Maria
Uma vez Jung disse à paciente que sua Grande Visão era uma “fantasia de Maria” e apontou três paralelos entre a situação de Maria e a visão da paciente: primeiro, Maria concebeu seu filho pelo Espírito Santo, provavelmente sem prazer sexual; segundo, Maria deu à luz a uma criança divina, a um “homem de gênio”; e terceiro, o filho não era legítimo.
Não poderíamos concluir pelo que foi acima descrito que a Voz na Visão escolheu esses pontos de paralelismo para sugerir uma fantasia de Maria: que, através deles, a Voz estava tentando dizer-lhe que ela deveria ser como Maria, humilde e obediente, cumprindo a vida que Deus havia escolhido para ela, e que não deveria lutar para conseguir fama e glória, como se estes fossem o objetivo de sua vida? Pois, se alteramos de algum modo nosso ponto de partida e olhamos para a vida de Maria como se olha para um mito, poderemos interpretar esse mito (ou essa vida) como um símbolo da extrema feminilidade da alma, que se desdobra em devoção para receber a Vontade de Deus.
No Livro das Horas, Rilke expressa a entrega feminina de sua alma para Deus. Usa as seguintes palavras: “Minha alma é uma mulher para Vós”. Ou ainda: “Estenda Vossas asas sobre Vossa serva”. Esta atitude de humildade e devoção era o que a moça tinha de aprender. Da mesma forma, em uma das conversas, a Grande Mãe havia dito: “Se conscientemente cumprimos nosso destino com uma atitude de devoção espiritual, criamos Deus da mesma forma que Ele nos cria.”. Em palavras mais femininas, criar Deus é sinônimo de dar a luz a Deus. E como a Grande Mãe também aludiu ao destino como um “germe divino”, podemos entender o símbolo da seguinte maneira: se vivemos conscientemente nosso destino que se desdobra em nós com uma atitude de devoção espiritual, damos à luz a uma criança divina simbólica.
A partir de algumas coisas que Jung certa vez disse à paciente, ela ficou com a impressão de que Deus é a vida em nós, de que somos Seus olhos e ouvidos e de que devemos dar consciência a Deus. Esta última idéia pode expressar o que Jung considerava o propósito de cada vida individual: devemos dar consciência a Deus!
Se formos capazes de fazer isso, então nossa consciência humana se torna consciência divina. E assim essa consciência divina nasce da nossa própria alma através de nossa experiência terrena ou através do nosso destino aceito e ativamente vivido. Não poderia ser este o objetivo para o qual a Voz na Visão apontava? Deus – como o criador do germe do destino em nossa alma – era o misterioso “pai da criança” que se ordenou que a paciente buscasse, e o significado disso era que ela teria de se tornar consciente de Deus como pai da criança. E, mais tarde, sua vocação era fazer o germe divino brotar de modo que pudesse sair dela como uma consciência divina. Simbolicamente, não somente o pai da criança, mas a própria criança tinha de ser – Deus. A visão é, realmente, uma fantasia de Maria.
Evidentemente, a Bíblia nos diz a mesma coisa de forma mais curta e direta através das palavras de Jesus: “Seja feita a Vossa vontade, e não a minha.” Mas Jung explica que todos os símbolos, mesmo os mais adequados e adaptados, podem com o tempo perder seu mana. Algumas vezes um símbolo se torna gasto, usado, esvaziado. Quando isso acontece, um novo símbolo necessita nascer na pessoa que perdeu contato com o antigo. Este nascimento individual de um novo símbolo, capaz de conter o mana do precedente, foi, de fato, o difícil processo de crescimento da vida interior da paciente. Quando foi atingido e pôde emergir na consciência, ela foi capaz de recuperar o contato com as palavras bíblicas que mencionamos há pouco, às quais não conseguia atribuir todo o mana de que sua alma era capaz. Nos anos seguintes, sua atitude transformada em relação à vida e ao destino promoveram a cura da sua neurose. Mas não foi tão rápido assim. O insight, sozinho, não foi suficiente. Esse insight teve de se transformar num fator vivo expresso na sua vida cotidiana.
O exame da moça
Voltemos à garota que acabou de ter sua Grande Visão e que, no dia seguinte, faria o teste para pianista de orquestra. Talvez, na primeira parte da Visão, a voz autoritária funcionasse como uma ajuda prática para a garota, para que ela não estragasse sua apresentação por causa de fobia de palco. Já vimos como ajudou neste sentido. É possível que somente a primeira parte da Visão tivesse sido suficiente para capacitá-la a atingir seu objetivo, mas isto parece duvidoso, pois a primeira parte não estava tão intensamente carregada de mana quanto a segunda. A paciente não poderia ter sentido a primeira parte, mais simples, como uma experiência religiosa não suficientemente para tê-la em mãos no momento em que a fobia de palco tentasse invadi-la. Muito mais importante foi a segunda parte, que lidava não só com seu desempenho musical, mas também com a totalidade da sua vida futura e, basicamente, com a vida futura da sua alma. Aqui jazia a experiência religiosa. Naquela noite cheia de significados, ela havia visto Deus por um instante, e nunca mais seria a mesma. Na manhã seguinte, quando se sentou em frente ao grande piano para tocar as peças do seu exame, estava ainda totalmente sob o encanto daquilo que havia ocorrido a ela durante a noite. Foi por isso que tocou tão bem. Até o comitê examinador sentiu a proximidade de Deus. Quando ela acabou de tocar, todos os examinadores levantaram-se instintivamente dos seus lugares para deixá-la passar. Estavam sem ter o que falar.
Batalhas arquetípicas na alma
Mesmo se o inconsciente quisesse somente dar à garota a satisfação de ser bem-sucedida num exame, a segunda parte da Visão teria sido necessária para que o conseguisse. Entretanto, o inconsciente queria muito mais do que isso: aparentemente, sua intenção era tocar a garota nas profundezas da sua alma para forçá-la a se tornar consciente da sua sombra perigosamente ambiciosa e do seu poderoso animus demoníaco. Ela não teria permissão para dar sua alma em pagamento pelo nome mundialmente famoso que estava tão ansiosa para conseguir na música. O diabo não teria esta alma, ao menos não enquanto a Grande Mãe estivesse em contato com ela. É quase como se a garota tivesse um anjo da guarda pessoal na forma da sua Grande Mãe. Talvez isso acontecesse para compensar a influência negativa sobre ela do seu animus excessivamente poderoso? Quem poderá dizer? O que sabemos de fato sobre as forças arquetípicas da luz e escuridão que travam suas lutas nas nossas almas? Enquanto somos totalmente inconscientes delas, podemos, provavelmente, ser apenas seu campo de batalha. Um pequeno papel para nós mesmos começa muito provavelmente somente depois que adquirimos pelo menos algum insight a respeito do fato de não sermos apenas um ego consciente, mas também uma minúscula partícula dos vastos e arquetípicos acontecimentos do inconsciente.
Reações: anticlímax e volta à Grande Mãe
Deixemos agora a jovem e seu exame e consideremos a mulher de meia-idade que, em sua análise, passou os últimos dias tentando obter uma explicação satisfatória para sua Grande Visão, e que agora é confrontada pelo problema de como trabalhar seu recém-adquirido conhecimento.
Como sabemos, é muito difícil não nos tornarmos inflados quando estamos, ou estivemos, em contato com figuras arquetípicas. Pois, se cometemos o erro de nos identificarmos com elas, primeiro a inflação, e subseqüentemente a deflação, vão provavelmente se seguir. Foi isto exatamente o que ocorreu com a paciente depois da última interpretação da sua Grande Visão. Em vez de usar seu recém-adquirido insight para uma melhor adaptação às demandas da vida, ela sentiu como se, depois de tudo pelo que já tinha passado na análise (!), agora tivesse o direito de obter saúde, jogada já pronta no seu colo, para ser possuída, usufruída e usada exclusivamente para seu benefício pessoal. É verdade que ela podia reconhecer que a interpretação acima mencionada da sua Grande Visão era a correta, mas, mesmo com essa explicação em mãos, não conseguia ver as portas do paraíso abrindo-se para ela, conforme havia esperado. Em vez disso, e por causa disso, teve de atravessar um anticlímax, uma amarga frustração. Como sabemos, ela havia buscado a verdadeira explicação durante praticamente toda a sua vida. Tinha se agarrado a isto como sua única esperança de salvação. E agora que a tinha, percebeu que essa posse não tinha o poder de curar sua neurose. (Evidentemente, cometeu o terrível erro de insistir em que agora estava curada, no exato momento em que deveria, humildemente, ter transformado sua atitude prévia em uma atitude de serviço devotado às forças inconscientes que lhe haviam revelado verdades tão importantes).
Em seu estado de depressão e desespero, um velho e conhecido amigo meteu seu nariz digno de confiança na história, e entrou novamente em cena. Seu velho animus, que havia perdido de vista temporariamente sem nem sentir muito sua falta, retornava agora para confortá-la, para “fazê-la ver”, como ele mesmo denominava sua função, e portanto, (mas isso ele fazia questão de não mencionar), para recuperar seu poder perdido sobre ela. Ele havia apenas esperado por um momento propício e ali estava, inconfundível, garantindo-lhe continuamente que ela havia regredido dois passos para cada um ganho naquela espiral escorregadia que tinha que escalar, chamada de caminho de individuação. Evidentemente, como ele dizia, tal subida estava muito além da sua capacidade; ela mesma deveria, certamente, perceber neste momento que o esforço só iria prejudicar sua saúde. Estava mais do que na hora de interromper a aventura. Com esta e muitas outras insinuações deste tipo, ele a bombardeava.
A paciente o ouvia com um ouvido, é verdade, mas com o outro ouvia um eco pálido das muitas palavras ditas pela Grande Mãe, palavras que, felizmente, não estavam totalmente perdidas para ela. Nos diálogos sobre o cumprimento do destino, a Grande Mãe havia realmente tocado numa corda sensível na alma da paciente, e sua atitude em relação à vida passada e futura tinha mudado. Por exemplo, ela agora vislumbrava a verdadeira razão da demora em recuperar sua saúde, ou seja, seu caráter voluntarioso, que produzia uma resistência enorme a ser analisada de modo bem-sucedido, pois ela tinha uma tendência fatal a estar sempre correta! Enquanto a atitude convencida da sua sombra (que funcionava como compensação para seus sentimentos de inferioridade) não fosse suficientemente reconhecida, ela ocasionalmente chegaria a ponto de usar regressões neuróticas para provar para suas analistas o quanto estavam erradas e o quanto ela mesma (ou seria seu animus?) estava sempre certa! Não era um meio muito adequado de obter a cura, deve-se admitir. Com essa atitude, ela havia providenciado um excelente esconderijo para as partes inconscientes da sombra e a possessividade do animus de que tanto gostava. Enquanto sua grande Anunciação não pudesse ser efetivamente explicada pela análise, a sombra e o animus ficariam contentes, e a própria moça permaneceria enferma e infeliz, mas confortada pela idéia de ser sempre a mais forte, para não dizer a superior! Agora ela deveria livrar-se dessas opiniões do animus. Durante a inflação mencionada acima, ele teve a oportunidade de inundá-la com essas idéias, até o ponto que ela se parecesse com um balão inchado. E quando veio a deflação, o desagradável anticlímax, ela se agarrou a ele como seu único apoio. Toda esta etapa de estar possuída pelo animus funcionou como um desses véus que o animus tanto gosta de atirar sobre suas vítimas; enquanto estava cega pelo véu, não poderia perceber claramente que havia, de fato, ascendido ao cume, de onde poderia ser capaz de destruir os esconderijos que realmente ocultavam a sombra e o animus em seu complô contra ela.
A paciente teve que dispensar seu amado sedutor e voltar para a sua Grande Mãe, o que fez, mas não sem freqüentes idas e vindas e hesitações. Sabia a essa altura que havia apenas um caminho para ter poder sobre o animus: olhar mais profundamente para as profundezas da sombra, para separar essa figura dele; e sabia também ser este o único caminho para ficar realmente em harmonia com sua infeliz vida pregressa e com as doloridas feridas recebidas no início da sua vida. A Grande Mãe, evidentemente, tinha seus próprios planos sobre como lidar com os véus do animus. Começou a ensinar à paciente a humildade e o sacrifício do ego, preparando supostamente o caminho para um grande mergulho no inconsciente, do qual sua discípula deveria extrair aquilo que fosse agora necessário para sua individuação posterior. Na realidade, foi a vida atrás da neurose, com a qual ela ainda não havia lidado, a vida que a Grande Mãe havia vivido por ela, e que havia prometido devolver em suas mãos assim que fosse suficientemente madura para viver por si mesma. A respeito da humildade e da morte do ego, a Grande Mãe disse o seguinte.
Oitava conversa com a Grande Mãe
Grande Mãe: A sombra, mesmo quando presunçosa, é útil e indispensável a você, porque há germes nela ocultos que podem, e devem, se transformar em humildade. Não se sinta bem demais por todas as feridas que recebeu em sua vida. Seja humilde o suficiente para sentir-se responsável por elas.
Paciente: Como posso obter a humildade, a humildade de Maria, que fez com que ela fosse escolhida como a Mãe de Deus?
Grande Mãe: Você não pode obter isso. Maria é uma deusa: você não é. Você só pode ficar tentando, o tempo todo, perceber o quanto lhe falta em humildade. Esta é sua forma de humildade. Esteja consciente, o tempo todo, da sua sombra convencida. Não tente superá-la, você não pode. Tente aceitar sua sombra, e viva a sua vida sofrendo-a, mas conscientemente!
Nona conversa com a Grande Mãe
Paciente: Sinto-me muito doente. Sinto a morte se aproximando. Sinto medo e horror, como se fosse haver uma execução.
Grande Mãe: Caso fosse realmente uma sentença de morte, você se sentiria culpada ou livre de culpa no que diz respeito ao pecado pelo qual você teria sido sentenciada?
Paciente: Você me disse para me sentir tão culpada quanto possível pelo meu pecado cardeal, que é o pecado de omissão em relação à minha natureza feminina. É por vingança da natureza que eu estou agora destinada a sofrer?
Grande Mãe: Você sofre a vingança da natureza na neurose.
Paciente: Estou sentenciada à morte pelo Self?
Grande Mãe: Sim, se “morte” significar sacrifício do ego!
Paciente: E quanto ao meu medo de morte física?
Grande Mãe: Eu não vou anunciar a hora da sua morte física. Faz parte da natureza humana não saber disso. Mas eu lhe anuncio que se espera de você o sacrifício do ego, um sacrifício total. E você só poderá salvar sua vida, sua vida física, fazendo esse sacrifício.
Paciente: Se estou entendendo direito, o que você está querendo dizer é que eu sofro dor corporal em vez de um sofrimento humano adulto, e que se eu não atingir a morte do ego, então, no lugar dela, pode vir a morte física, como um tipo de símbolo.
Grande Mãe: Sim, mas a morte física não é sempre um símbolo da morte do ego. Se você, agora, quiser atingir a morte do ego só para salvar sua vida, isto não será absolutamente a morte do ego. Você tem que aceitar a morte, dor, e tudo o que possa vir com elas. Isto seria mais próximo da morte do ego. Muitas e muitas pessoas só conseguem atingir a morte do ego na forma de morte física. Pode ser que você seja uma delas. Coloque de lado a ambição de atingir a morte do ego. Seja grata porque a humilde morte física pode compensar muitas mortes de ego não realizadas. Você tem tanto medo da morte porque conta somente consigo mesma, ou somente com seu intelecto. Mas não pode controlar sua vida nem sua morte com o cérebro. Tente confiar em mim, por exemplo. Coloque seu medo nas minhas mãos. Este seria o sacrifício do ego para seu nível atual. Talvez a natureza, ofendida com suas deficiências sexuais, possa ficar satisfeita com esta penitência. E não apenas a natureza, mas também sua sombra, que nunca obteve seus direitos naturais. Realize o sacrifício do ego para satisfazer a sombra. E perceba sua satisfação na experiência, ou seja, com a experiência de Deus que pode estar contida na morte do ego.
IV . Profundos mergulhos no inconsciente
Agora nos aproximamos daquilo que a paciente chamou seus “profundos mergulhos no inconsciente”. Até então, a Grande Mãe estava educando sua aluna no seu nível pessoal (com uma ou duas exceções, que foram, na realidade, antecipações). De agora em diante, o subtexto muda quase que imperceptivelmente, e as conversas adquirem o tom de verdadeiras revelações, feitas por um grande professor a seu aluno.
O primeiro grande mergulho teve de ser principalmente no inconsciente pessoal, ou seja, dentro de repressões muito pessoais de adversidades e eventos dolorosos. Mas seu maior valor emocional não consistiu meramente na recuperação para a consciência de conteúdos reprimidos. Muito mais valiosas para o desenvolvimento da paciente foram sua recém-adquirida obediência e submissão à Grande Mãe e à dor e tristeza que essa grande figura do inconsciente coletivo iria agora infligir-lhe. Aos olhos da paciente, seu mergulho a levava para baixo. Mas a Grande Mãe ensinou-a a olhar para ele do seu ponto de vista, o ponto de vista da Grande Mãe. E quanto mais sua aluna descia, entrando no lado animal da natureza humana, e quanto mais pessoal esse lado animal parecia a seus próprios olhos, mais elevado tornava-se o lado espiritual a partir do qual a Grande Mãe a fazia olhar para as coisas. Parecia que a paciente estava em análise com a Grande Mãe.[8] Mas, na realidade externa, estava também em análise com uma analista junguiana, e certamente a paciente não teria conseguido dar seus profundos mergulhos sem o apoio sólido e a calorosa simpatia dessa mulher. Aqui, o papel desempenhado pela analista no desenvolvimento é praticamente omitido, porque o objetivo deste relato é ser visto como uma tentativa de mostrar a função da Grande Mãe. Mas lembrem-se, por favor, de que a analista está ao fundo durante todo o percurso, com sua incansável paciência e prontidão para ajudar. Ela ofereceu sem reservas a sabedoria psicológica que ela mesma havia adquirido, provavelmente somente através de constantes e intensos esforços internos.
Um amor não correspondido
Antes de nos ocuparmos das conversas subseqüentes, que foram o começo da real descida da paciente à escuridão da sua própria alma, devemos voltar àquela parte da história na qual, aos 24 anos, ela começou uma análise freudiana com um analista que chamaremos de Sr. X. Agora, décadas mais tarde, a Grande Mãe a convocou a dar um mergulho exatamente no mais profundo daquele desespero reprimido que tinha sido resultado do tratamento de Sr. X. A paciente estava convencida de que tinha de encará-lo, e numa fantasia escrita esboçou uma honesta tentativa de fazê-lo. Durante esta fantasia, viu a si mesma num tipo de porão ou prisão. Nessa cela vivia seu desespero. Tudo lá parecia escuro, confuso e obscuro. Era extremamente desnorteante. Mas foi ali que a Grande Mãe foi até ela e lhe deu algo, colocando-o em suas mãos. Depois, quando pensou que teria de tocar seu desespero, a situação revelou-se bem diferente. Não foi seu desespero que ela tocou, foi sua capacidade de amar, devolvida para ela pela Grande Mãe.
Aqui, a fantasia ativa tornou-se passiva. Nesta fantasia passiva, ela estava casada com Sr. X. Ele a amava e tratava-a com ternura. Ela sentia-se grata e feliz. Eles se queriam e deram vazão a seu desejo. Mas sua paixão não foi a única coisa que ela lhe deu. Eram um casal casado, que se amava calorosa e verdadeiramente. Cada sentimento era genuíno e intenso. Era como se seus sonhos de menina tivessem se realizado. Ela se sentia encantada em experimentar que seu amor não tinha sido espezinhado nem destroçado. Revelava-se como um amor virginal e florescente. Mas era um amor muito juvenil, não amadurecido como o de uma mulher. E estava purificado, de fato, mais puro do que quando o Sr. X o destruíra na realidade externa. E então, de alguma maneira, ela soube que tinha sido o próprio Sr. X que o purificara. Ela não havia recebido tal presente somente das mãos da Grande Mãe, mas também das mãos dele. Desta forma, aprendeu que nunca o havia genuinamente odiado. Era como se tivessem sido casados por todos aqueles anos, mas em um outro mundo, não neste. Num casamento mundano eles nunca poderiam ter atingido este tipo de união.
Três dias mais tarde, a paciente teve a seguinte conversa com a Grande Mãe:
Décima conversa com a Grande Mãe
Paciente: O que você me trouxe neste porão é maravilhoso, claro. Como sempre, o animus tentou tirá-lo de mim, mas eu não permiti. Acho que há só um ponto em que concordo com ele, e é o de que não quero ter uma atitude de menina, por mais pura que possa ser. Chego a preferir a minha tristeza. Minha tristeza carregou-me vida afora, e sinto-me mais madura com ela e até mesmo mais digna, do que atuando como uma jovenzinha virgem.
Grande Mãe: Então o que eu lhe dei ajudou-a a perceber o valor da sua tristeza. Isto é a aceitação dela, a integração. Não há desespero reprimido em você agora, porque você percebe o valor de uma mulher amadurecida através da tristeza. Você até mesmo sente que isso tem um significado maior do que a felicidade intocada pela qual você ansiava. Isto é aceitação do destino, não é?
Com estas palavras, a Grande Mãe abandonou sua aluna às próprias reflexões e àquelas que sua analista acrescentasse. Depois de algumas explanações de sonhos, a analista disse: “Você deve manter ambas. Não jogue fora nem o símbolo nem a tristeza. Elas são uma coisa só em diferentes aspectos, e você deve manter-se consciente de ambos”.
Uma tentativa do animus de interromper foi evitada na conversa seguinte:
Décima primeira conversa com a Grande Mãe
Paciente: Quando sou submissa ao animus…
Grande Mãe (interrompendo-a): Você tem seus instintos femininos que lhe dizem que seria melhor submeter-se a homens reais. Deixe que eles tenham toda a sua submissão, mesmo que estiver desempenhando um papel. Isto vai ajudá-la a se libertar do animus. E agradar a sombra, também.
Paciente: Mas eu sou tímida em companhia de homens.
Grande Mãe: Trata-se de uma submissão invertida, significa estar terrivelmente possuída pelo animus, que engole sua persona e depois, em seu estado de timidez, fala por você. E você o projeta nos homens reais, sabendo exatamente o que eles pensam e o quanto não gostam de você, e até a desprezam.
Paciente: Eu sei.
Grande Mãe: Mas o que você não sabe é que esses homens grandes e poderosos não desprezariam absolutamente sua pequena comédia de submissão. Não veriam a verdadeira natureza dela, e sua vaidade ficaria lisonjeada. Se pudessem ver o verdadeiro caráter dessa comédia, ainda assim apreciariam sua inteligência feminina ao jogar com eles desta forma, e reagiriam como se estivessem gostando. Seria persona contra persona então, ambas bem jogadas e administradas. Seria muito melhor do que sua timidez teimosa e a irritação que ela causa neles. É suficiente por hoje.
Desta forma, a Grande Mãe zombou do desconforto da paciente, e ao mesmo tempo riu da sua própria impaciência. Mas no diálogo seguinte suas palavras soaram muito sérias novamente.
Décima segunda conversa com a Grande Mãe ( fragmento)
Grande Mãe: Confie em mim, apóie-se em mim, quando eu digo que você não é uma mulher que não foi amada. Você tocou o Sr. X, mas nem você nem ele entenderam o que estava acontecendo. Pareceu ser tudo negativo, mas não foi. Seu sentimento era tão genuíno, tão profundamente real, que pertence às coisas que não se perdem. Mas nenhum de vocês estava à altura dele, então teve de ser experimentado como sofrimento, muito negativamente, e teve de ser completamente mal entendido.
O Sr. X sentiu seu amor, mas reprimiu tal sentimento, preferindo não se tornar consciente dele. Ele também teve de sofrer, tanto quanto você.
Décima terceira conversa com a Grande Mãe (fragmento)
Paciente: Tenho medo do que chamo de suas “injeções de grandeza”. Temo uma inflação! Não seria melhor seguir o aviso do animus e considerar meu amor por Sr. X como imaturo?
Grande Mãe: O que havia de imaturo nele?
Paciente: Eu não conseguia, de forma alguma, ver o ponto de vista dele. Confiei nos meus próprios sentimentos, e nunca considerei os dele.
Grande Mãe: O Sr. X, em seu papel de analista freudiano, não lhe deu a menor chance. A situação era estranha. Ele não deu conta dela. Não havia nada de errado com o seu amor, mas ele não poderia se desenvolver. Não poderia se desenvolver em você, e não poderia se desenvolver nele. Ele o assassinou, por assim dizer. Então você cometeu um erro: permitiu que ele a torturasse, psiquicamente, porque a tortura era a única coisa que poderia extrair dele. Sofrer de bom grado essa tortura significava a união sexual para vocês. Assim, ele colocou-a numa perversidade, que era mais dele do que sua. E portanto eu guardei seu amor puro para você. Quero agora que você o recupere e integre. A razão pela qual você criou tantos problemas a respeito disso, até mesmo problemas entre nós duas, é que você assumiu os erros dele como seus, mas isso, mais uma vez, decorre de puro amor! Você não poderia vê-lo como sombrio. Isto é infantil e imaturo. Tente compreender que havia um lado desastroso em seu comportamento em relação a você.
Paciente: Eu estava cega?
Grande Mãe: Sim, mas tinha de estar. Isto não importa. O que realmente importa é que você projetou as qualidades do seu próprio amor nele, e quando não funcionou, você destronou seu amor, em vez de destronar seu objeto.
Paciente: X não merecia meu amor?
Grande Mãe: Merecia. Mas estava, ele mesmo, doente e estragado pela vida, e ainda mais distante da normalidade que você. E você não poderia ajudá-lo, principalmente porque esta era a última coisa que ele queria. Nada poderia estar mais distante daquilo que ele queria.
A paciente tinha agora um material importante sobre o qual meditar e o qual integrar, se fosse capaz. Olhar para seu pobre e pisoteado amor através dos olhos da Grande Mãe foi como uma bálsamo para uma ferida. Podia agora iniciar um novo contato com valores importantes na profundidade da sua alma e sentir-se um pouco mais conectada no que dizia respeito ao seu passado e à sua feminilidade. Tudo isso foi altamente positivo. Mas seu caso neurótico era complicado e precisamos ter bastante paciência com ele, particularmente por causa do seu animus. Este personagem era como aqueles palhaços que pulam das caixas, aparecendo em momentos imprevisíveis. Não podemos nunca subestimar o prazer malicioso que ele tinha em enfrentar sua adversária, a Grande Mãe, desvalorizando suas palavras no seu modo astuto e convincente. E ele sempre deixava claro que, evidentemente, fazia seus discursos com bondade, e somente porque queria ser útil para a paciente! Ela lutou contra ele, mas sabia agora que seu poder sobre ela só poderia ser quebrado se ficasse consciente da sua sombra, o mais completamente possível. Tentou criar o hábito de fortificar-se com pedaços recém-compreendidos da sombra sempre que estivesse prestes a arriscar um novo mergulho no inconsciente. O resultado disso foi a seguinte conversa:
Décima quarta conversa com a Grande Mãe
Paciente: Tentei tornar-me mais consciente daquela parte de mim que chamo de “mulher não amada”. Ela é uma mulherzinha extremamente patética que inspira muita pena e ao mesmo tempo é tão pretensiosa! Está sempre histérica, chorando e se lamentando. É torturada pelo seu desejo de amor. Mas nem mesmo o amor de Cristo tê-la-ia satisfeito. Seus desejos são muito mais primitivos. O único amor convincente a seus olhos seria – se você me permitir usar sua própria linguagem dramática – um pênis penetrando-a. E isso é a minha tortura. Este pequeno animal vive em mim; vive, evidentemente, em cada mulher. E eu presumo que um homem, por sua vez, só se convence de que uma mulher realmente o ama se ela lhe oferece seu corpo. Ele deve ser tão torturado pelo seu complexo vaginal quanto as mulheres pelo desejo de pênis, eu suponho. Agora que estou encarando o lado animal da natureza humana, sinto piedade, amor e compreensão por todos os seres humanos e não por desprezo, mas por sentir que sou um deles.
Grande Mãe: No seu caso, essa mulher não amada, como você a chama, teve de permanecer sem ser amada para que você pudesse chegar a se conscientizar dela. Mas não generalize: a frustração foi a sua forma de se tornar consciente, mas para outras pessoas pode ser totalmente diferente.
Tais assimilações de partes sexuais da sombra foram absolutamente indispensáveis para a paciente como uma preparação para o próximo grande mergulho no inconsciente. Ela, desta vez, extrairia o que mais tarde chamaria de seus “horrores familiares”. A Grande Mãe provavelmente já sabia destes horrores, como sabia também que sua aluna teria de atravessar o inferno para poder trazê-los à tona. Assim, sua preparação consistiu em se certificar de que o elo que a unia a sua aluna era suficientemente seguro para suportar as inevitáveis dificuldades.
Aqui podemos perguntar se não teria sido melhor se a paciente tivesse procurado um analista homem, para curar sua sexualidade ferida. Mas era exatamente isso que ela não poderia fazer, porque o contato com a masculinidade em geral e com a sexualidade masculina em particular ainda estava bloqueado no seu inconsciente. Agora que iria tentar se tornar consciente das causas que, na primeira infância, haviam ocasionado seu bloqueio, a paciente queria um gancho psíquico, um forte laço psíquico no qual apoiar sua feminilidade fragilizada. Isso a ajudaria a evitar o perigo de ser devorada pelo inconsciente, uma possibilidade que poderia ocorrer assim que o horror original, que a havia engolido totalmente, viesse outra vez à tona.
Para uma pessoa extrovertida, um contato humano normal com o outro sexo teria provavelmente sido o caminho para resolver o problema. Mas nossa paciente extremamente introvertida precisava percorrer um caminho introvertido se fosse realmente atingir, nas profundezas da sua alma, o sentimento genuíno e realmente convincente sem o qual não poderia sequer arriscar um pequeno passo no mundo externo. Para termos idéia do nível de impossibilidade da solução extrovertida para ela, basta percebermos que todas as suas tentativas de superar seu pânico sexual falharam. Duas vezes em sua vida esteve muito perto de ter o que chamamos de um “caso”, mas em as situações aconteceu a mesma coisa. No momento em que ela poderia ter superado seu pânico, o parceiro sentiu o tabu, não conseguiu lidar com ele e a abandonou. Esse comportamento de mais de um parceiro, em outros aspectos, normais, era sugestivo. Era necessário um segundo mergulho no inconsciente para que se obtivesse um insight melhor sobre a natureza do tabu.
Na conversa seguinte, a Grande Mãe usa o conhecido fato de que um êxtase espiritual genuíno geralmente produz sensações sexuais perceptíveis no corpo. Queria supostamente que sua aluna tivesse tais sensações porque – conforme acabamos de ouvir – a sombra da paciente não poderia ser convencida por nenhuma verdade, exceto pelas que viessem das partes sexuais. E esta sombra primitiva não deveria ser deixada de lado nem se poderia permitir que alimentasse seu ressentimento, secreta e discretamente, no inconsciente. Se o êxtase espiritual é o tipo mais elevado possível de experiência religiosa, então sua contraparte, o êxtase sexual, não deveria ser excluído, mas dever-se-ia permitir que ocorresse para convencer não somente o lado espiritual, mas toda a psique humana, isto é, a sombra corporal também.
Décima quinta conversa com a Grande Mãe
Paciente: Outro dia, como você sabe, peguei um pedaço da sombra, no momento em que reconheci em mim este pequeno animal que disse que a penetração de um pênis era a única coisa na qual poderia acreditar. Hoje tive uma sensação física semelhante. Foi muito real e convincente, mas a penetração aconteceu na minha alma e quem a penetrou foi você! Assim, devo admitir agora que você é a verdade da minha sombra. Isto é terrível para mim. Significa que devo desistir do meu suporte crítico, racional. Significa que estou completamente em seu poder, agora.
Grande Mãe: Renda-se para mim. Faça isso pela sua sombra. Nossa união simbólica significa, para ela, o coito que ela deseja.
Paciente:O que você está fazendo comigo é penetrar no meu medo, no meu pânico sexual e no meu tabu.
Grande Mãe: Eu não vou poupá-la! Este ato de união espiritual tem de ser realizado, pois preciso ter certeza de que você está totalmente disposta a se entregar a mim.
Paciente: Teste-me, então!
Grande Mãe: É o que vou fazer! Mas lembre-se de que não há volta. Falando simbolicamente, estou agora tirando de você sua virgindade e sua independência. Você pertencerá a mim para sempre depois disso, e nem sempre extaticamente. Muito pior serão os períodos nos quais você se sentirá separada de mim. Você não estará realmente separada, mas se sentirá como se estivesse. Vai ansiar por uma união renovada comigo, mas eu não vou lhe dar isso sempre. É esse o teste. Se puder suportar tais provas, terá provado que desenvolveu um contato real comigo. Agora, em primeiro lugar, assimile aquilo que uma vez você chamou de minhas “injeções de grandeza” pois sem grandeza você não tem a menor chance de me tolerar. Saiba que coito significa impregnação, mesmo numa união simbólica.
Penitência
Foi um inferno para a paciente render-se à experiência irracional da união com um arquétipo, tornar-se consciente dela através do êxtase, como excitação sexual, e confrontar-se com toda essa situação. Parecia uma penalidade imposta a ela pelas duas entidades furiosas e feridas, a natureza e a sombra, que se sentiram, ambas, tratadas de forma desonrosa pela continência da paciente em assuntos sexuais, e que só seriam aplacadas se ela fosse capaz de se submeter incondicionalmente a essa penitência. O que a Grande Mãe exigia era realmente uma expiação. E durante sua expiação, a paciente teria não somente de desistir da revolta crítica do seu animus, que havia, definitivamente, sido uma arma contra a insanidade, mas também teria de se submeter completamente às exigências que o inconsciente parecia lhe impor e as quais, na verdade, ela não podia entender.
Ela agora temia a Grande Mãe, e temia perder sua sanidade, ou que já estivesse louca. Tinha medo de ser inundada pelo irracional e nele submergir. Sem o apoio de uma analista, não poderia ter continuado. Mas ela tinha esse apoio, além de um motivo interior sólido para perseverar: essa nova experiência não poderia ser pior do que a que havia suportado durante os muitos anos nos quais sofrera as terríveis conseqüências da sua neurose, que certamente era igualmente irracional. Decidiu correr o risco, até mesmo o risco último da loucura, porque, por tudo o que era mais sagrado para ela, não queria perder essa última chance de libertar sua alma do seu tormento, a chance contida nesta penitência irracional imposta a ela.
Então a Grande Mãe a consolou dizendo que o animus a salvaria. Ela devia ouvir as palavras da Grande Mãe e as objeções do animus, para aprender a formar seu próprio ponto de vista. Devia considerar o espírito rebelde do seu animus como uma possível proteção contra a personalidade talvez poderosa demais da Grande Mãe. A paciente devia manter um olho em cada um.
Isso pareceu à paciente uma verdadeira prova da superioridade da Grande Mãe. Causou-lhe enorme impressão. Sua professora havia trazido à cena até mesmo seu pior adversário para ajudar sua discípula e também para ficar contra ela. Isso dizimou todas as dúvidas, e a paciente estava agora disposta a se submeter à Grande Mãe em um ato simbólico de coito, esperando assim compensar todas as experiências que perdera na realidade corporal. E isso, sua união com a Grande Mãe, mostrou ser ao mesmo tempo um segundo mergulho no inconsciente pessoal, um mergulho necessário para trazer incidentes esquecidos à tona e para olhar para eles de um novo ponto de vista. O mergulho foi difícil. Conseqüentemente, páginas e páginas foram preenchidas com conversas a respeito do material que emergiu. É impossível apresentar esse material em toda sua riqueza, então faremos uma narrativa resumida, na qual encontrarão, de vez em quando, as palavras verdadeiras da Grande Mãe.
A Tragédia Familiar
Imaginemos uma família aparentemente feliz: pai, mãe, três crianças, situação externa bem normal. O caráter do pai é o dominante, e o da mãe, gentil, adaptável, daqueles que suavizam as dificuldades.
Como o pai é a figura mais dominante do casal, devemos olhar particularmente para o tipo de pessoa que ele era. Acho que a expressão “virtuoso a seus próprios olhos” se aplicaria a ele: sempre sabia exatamente o que era certo e o que era errado. Mas, à parte da sua rigidez, era amável, geralmente amado e estimado. Certamente amava sua esposa e filhos; amava seus companheiros e era um bom camarada. Profissionalmente, era um bom advogado, trabalhador e bem conhecido. Esse homem, que parecia destinado a passar a vida com alegria e sem muitos problemas, tinha uma sombra altamente perigosa, da qual se esforçou para permanecer completamente inconsciente, levando assim toda sua família à ruína.
Quando as crianças ainda eram muito pequenas, o pai, que trabalhava até tarde da noite, freqüentemente não conseguia acordar de manhã. Da mesa do café da manhã sua mulher enviava-lhe, uma de cada vez, as crianças para despertá-lo. Assim, aconteceu mais de uma vez que sua segunda filhinha, nossa paciente, invadiu seu quarto e brincou com seu pai preguiçoso, até conseguir acordá-lo. Deve ter sido durante uma dessas inocentes visitas matinais que aconteceu a coisa mais inacreditável, que destruiu a alegria inofensiva da criança e feriu-a por toda a vida com um tabu sexual. Ela era tão pequena quando aconteceu que, mesmo mais tarde na terapia, não conseguia se lembrar dos detalhes precisos, desejando, por muito tempo, que tivesse sido um acontecimento imaginário, em vez de real. Mas a Grande Mãe disse-lhe que foi absolutamente real, e a história infeliz dos tristes acontecimentos posteriores na família nos força considerá-lo desta forma.
O que a menininha de três ou quatro anos viu naquele que foi o pior dia de sua vida foi, não somente os genitais de seu pai, mas provavelmente sua masturbação, e, o que foi ainda pior, a expressão do seu rosto. O que ela conseguia lembrar claramente mais tarde era de uma sensação esmagadora em todo o seu corpo, e provavelmente em sua alma, também. Ela estava completamente identificada com seu pai naquilo que Jung chamou de participação mística.
A Grande Mãe fez os seguintes comentários a respeito disso:
Décima sexta conversa com a Grande Mãe
Grande Mãe: O analista freudiano simplesmente encorajou-a a se lembrar do que havia acontecido. Isto não é suficiente. Lide com isso! Perceba o papel que ainda tem na sua vida!
Paciente: Minha libido ficou presa ali.
Grande Mãe: Sim, você nunca conseguiu separar sua própria sexualidade da sexualidade do seu pai. E este o é seu problema e tormento mesmo agora.
Esta participação na sexualidade do seu pai exerceu, evidentemente, uma má influência no caráter da menininha. Ela tentou reprimir o tormento da inquietude que não conseguia compreender, que consistia de culpa e de sentimentos de inferioridade. Supercompensou tais sentimentos mostrando-se uma criança excepcionalmente obediente (embora houvesse sido um pouco levada anteriormente), e começou a desenvolver uma ambição ardente de ser excelente em todas as formas. Enquanto sua mãe viveu, esta mulher gentil representou uma proteção verdadeira para a criança altamente tensa, e nervosamente sobrecarregada, que, pelo menos, podia sentir-se segura na proteção de seu amor materno. Mas, apesar de tudo o que havia feito não intencionalmente para ela, a criança não odiava seu pai. Ela o adorava e venerava. Na verdade, toda sua vida ela desesperadamente lutou pelo seu amor.
Então a família foi atingida pelo pior golpe imaginável – a morte da mãe. Essa mulher tão profundamente amada morreu de câncer aos quarenta e três anos. Era ela quem mantinha a família unida, e quando faltou, seu marido e filhos sentiram-se desenraizados. O pai tentou ser mãe e pai para seus filhos, mas essa tentativa falhou desastrosamente, mesmo que os amasse e fosse por eles amado.
Logo depois da morte da mãe ocorreu um incidente desagradável. O pai tinha o hábito de entrar e sair livremente de todos os quartos, inclusive do quarto onde seus filhas dormiam (As meninas tinham treze a catorze anos nessa época). Uma vez ele entrou enquanto a mais jovem, a nossa paciente, estava se despindo, tendo acabado de tirar a última peça. O pai ficou agradavelmente surpreso ao perceber que ela já tinha uma figura tão desenvolvida e disse-lhe isto. Ele não conseguiu resistir e acariciou seus jovens seios nus, na presença da irmã mais velha.
Sete anos mais tarde, ele deu outra prova de sua inadequada “função materna”. A moça tinha, agora, vinte anos. Tinha passado por um exame médico, e o doutor prescreveu-lhe uma irrigação interna, através da vagina. Quando a jovem, que era sexualmente inocente como uma criança, começou a manipulação, seu pai estava presente no quarto sob o pretexto de que ela, por sua inocência, poderia se machucar. Sentiu-se obrigado a mostrar-lhe como fazer, inserindo ele mesmo o irrigador. Sua emoção mal escondida atingiu a jovem, machucando ainda mais sua alma.
Não sabemos como o pai se comportava em relação aos outros filhos, mas o fato é que o menino morreu aos dezoito anos e, muito mais tarde, a filha mais velha suicidou-se.
Assim o infeliz havia perdido sua esposa e dois de seus filhos, e tudo o que lhe restou foi uma filha, nossa paciente. Esta filha era neurótica e por esta razão um espinho na carne de seu pai, que sempre sentira profundo desprezo por gente neurótica. Morreu com setenta e cinco anos, em conseqüência de uma operação. Foi uma morte lenta e prolongada. O fim chegou no hospital onde ele vinha sendo cuidado por exatamente seis meses, onde nossa paciente o visitava todos os dias. Nas últimas semanas de vida sua mente começou a falhar. Assim, sua consciência extinguiu-se gradualmente. Neste estado mental, um dia implorou à filha que se despisse. Como sua voz estava, então, muito fraca, ela teve que se debruçar sobre ele, para ouvir suas palavras, e ele tentou desabotoar sua blusa com suas mãos moribundas, e ficou muito aborrecido com ela por vários dias por ter-se esquivado do seu alcance. Ficou uma figura patética nos seus últimos dias, atormentado por sonhos e alucinações. Via-se na cadeia ou acorrentado, porque havia assassinado suas duas filhas, como revelou à filha. Estava em todos os jornais, afirmava.
Finalmente, a morte libertou o pobre velho da sua tortura. Morreu numa manhã de domingo. No exato momento em que expirou, um coro formado pelas freiras do hospital começou a cantar os habituais hinos dominicais nos corredores do prédio. Foi uma coincidência, se assim o quiserem. Mas aos ouvidos da filha, sentada ao lado do pai que havia acabado de falecer, as vozes que cantavam pareciam um acompanhamento celestial para a alma do seu pai que entrava no Além. Tal evento sincrônico pareceu a ela justificar o fato de que, apesar de tudo o que havia acontecido, ela nunca havia deixado de amar seu pai profundamente.
Uma tentativa da Grande Mãe de curar o tabu sexual da paciente
A tragédia familiar, descrita acima, teve de ser apresentada aqui por causa de alguns detalhes não mencionados anteriormente. Sem estes detalhes, não poderíamos entender o ponto de vista da Grande Mãe nos diálogos seguintes. Mas primeiro eu gostaria de citar um trecho da Psicologia e Alquimia. Neste trabalho, Jung escreve:
Sejam quais forem os pecados que os pais ou ancestrais tenham cometido contra a criança são aceitos pelo homem adulto como sua própria condição inata com a qual deve se entender. Somente um tolo se interessaria pelas culpas de outras pessoas, as quais não pode alterar. O homem sábio perguntaria a si mesmo: “Quem sou eu para quem tudo isso aconteceu?” Para encontrar a resposta a esta decisiva pergunta, ele deverá procurar nas suas próprias profundezas.[9]
Estas significativas e sábias palavras expressam exatamente a posição da Grande Mãe quanto à educação da sua discípula. A Grande Mãe sempre enfatizou, como Jung, o valor de assumir a responsabilidade, em vez de esconder a própria culpa pessoal atrás da sombra de alguém. Assim, ela agora comanda a sombra da paciente a contar a história em suas próprias palavras, mesmo se estas palavras não forem muito cuidadosamente escolhidas. E a Grande Mãe convoca a paciente a tornar-se consciente da sua participação na tragédia, do papel que ela desempenhou através da sombra, que é uma parte dela mesma.
A seguir, uma conversa entre três personagens: ego, sombra e Grande Mãe. A sombra fala primeiro.
Conversa com a sombra, sob a supervisão da Grande Mãe
Sombra ( para a paciente): Por que (você acha) que sua mãe sofreu e morreu? Por que (você acha) que seu irmão morreu tão jovem e que sua irmã se matou? E como você pode ignorar o que aconteceu nos últimos dias de vida do seu pai, quando ele claramente demonstrou que a desejava sexualmente? Não seja criança! Entenda!
Paciente: Meu amor por meu pai me cegou!
Sombra: Seu amor tolo! Era a mim que ele queria! E tinha! Você escolheu ficar inocentemente inconsciente. Reprimiu tudo, considerando inofensivo, sua criança tola! Mas eu estive com ele! Ele também era uma criança. Devo lhe dizer. O médico disse que sua mãe não deveria ter mais filhos.
Paciente: Eu sei: ele mesmo me contou isso. Ela quase morreu quando meu irmão mais novo nasceu, e mais nascimentos seriam um risco muito grande.
Sombra: Ele nunca mais a tocou depois disso, refugiando-se nas perversões. Satisfazia sua luxúria através da crueldade.
Paciente (para a Grande Mãe): Por favor, Grande Mãe, posso falar com você, em vez de com a sombra?
Grande Mãe: Você pode ouvir de mim esta parte da história. Ouça! Seu pai extrovertido, um tipo pensamento que se achava muito correto, sabia exatamente onde a correção acabava e onde o pecado começava. Enquanto não tivesse diretamente um coito com você, percebia tudo como paternal e permitido. Não via sua sombra sexual, nem percebia que vivia esta sombra. Ele amava o poder. Queria que todo mundo se entregasse a ele, mas não num coito normal. Ele fazia com que as pessoas o desejassem, e depois se retirava para sua correção. Foi por isto que você sofreu, foi por isso que sentiu um amor ardente e não correspondido por ele. Você o amou porque ele, de fato, se fazia ser desejável. Em parte, seu amor de pai era muito correto e até mais do que correto. Mas havia essa perversidade nele. Quando você era muito pequena, ele lhe mostrava suas partes sexuais e sua luxúria, para vê-la esmagada de desejo. Mas não sabia disso; era tão inconsciente quanto uma criança. Agora entra sua sombra: ela gostava.
Paciente: Por favor, Grande Mãe, posso falar com você e não com ela?
Grande Mãe: Não, vá até o amargo fundo e escute sua linguagem.
(A paciente concorda com isso e ouve sua sombra)
Sombra: Eu simplesmente gostava da sensação – parte luxúria, parte medo, parte culpa – e gostava de senti-la junto com ele. Eu me sentia uma grande garota, e era superior à sua estupidez. Evidentemente, ele sabia inconscientemente que sempre poderia atingi-la através de mim. E eu, como sombra, mobilizava a sombra dele.
Grande Mãe ( interrompendo a sombra e falando para a paciente): Agora, por favor tente reconhecer essa sombra em você mesma; sinta-se responsável por ela.
Paciente: Posso me lembrar de que algum instinto me avisou, disse-me que aquilo não estava certo.
Grande Mãe: Este instinto também era a sombra; era outra parte dela. Se você tivesse dado ouvidos ao seu instinto, poderia ter empurrado seu pai para longe de você; pelo menos nas outras ocasiões, quando já era mais velha. Mas você o encorajava. Você sabe como o encorajava?
Paciente: Temo que eu gostasse do contato.
Grande Mãe: Sim. Vocês dividiram prazeres, medos e agonias em seus inconscientes, em vez de afastarem-se da sua inconsciência e perversão. Você deu libido à sombra mais obscura do seu pai, recusando-se a percebê-lo como pecador, e isso apesar dos avisos do seu instinto. Você não pode reprimir sua própria culpa exonerando seu pai. Ele não foi somente o pai que cuidava, amoroso, e você a menina obediente, inocente. Não! Ele se aproximou da sua filhinha com tendências perversas, e ela gostou e deixou acontecer. Quase um incesto de pai com filha! Só mais um passinho para jogá-lo na prisão. Evidentemente esse passinho não foi dado, e vocês dois se esconderam na “correção”, na respeitabilidade, com as inclinações incestuosas cobertas pela inocência aparente. Ainda hoje você está sob o encanto de tudo isso. Agora, quebre o encanto! Recuse-se a continuar torturando você mesma com a falsa respeitabilidade do seu pai. Veja a sombra dele, e ponha-a de lado julgando-o com severidade. E assuma total responsabilidade pelo papel que sua própria sombra desempenhou na tragédia. Sofra a aversão que você sentiu por ela, sofra completamente! Talvez sua natureza ferida possa então perdoar você e o equilíbrio possa ser finalmente restaurado em sua alma!
Sonho
Para confirmar esta conversa, a paciente teve um sonho sobre contrabando, que aconteceu em uma fronteira qualquer. Sua analista lhe explicou o contrabando no sonho como sendo o tipo de desonestidade que cometemos quando reprimimos pensamentos desagradáveis até, e além, do limite da consciência. E a analista acrescentou: “A maioria das pessoas acham que não são culpadas quando não sabem sobre os crimes que cometeram. Mas Jung nos mostra que somos culpados quando não sabemos a respeito deles. Não saber nos torna culpados”.
O próximo passo no seu caminho em direção à individuação foi a paciente ver sua mãe humana através dos olhos da sua mãe arquetípica.
Décima sétima conversa com a Grande Mãe
Grande Mãe: Será difícil para você, que a amava tão profundamente, mas precisamos agora olhar o papel que sua mãe desempenhou nos seus “horrores familiares”. Sua mãe não era tão inconsciente quanto seu marido, mas era fraca e facilmente influenciável. Amava seu marido acima de tudo, e não poderia aceitar ou ver seu lado sombrio. Cometeu o mesmo erro que você. Você a imitou. Isto ocorreu por causa da sua participação mística com ela. Ela reprimiu seu conhecimento a respeito da sombra perigosa do seu marido porque ele teria que permanecer um herói imaculado. Não sabia muito a respeito da sua própria sombra, mas vivia na falsa honestidade dele. Fez isso por causa da lealdade e gentileza em relação a ele. Ela era demasiadamente una com ele, e participou de seus crimes uma vez que não protegeu seus filhos suficientemente. Ela rendeu-se à sua sombra e teve que morrer por causa disso. O diabo tomou seu corpo, envenenando-a mortalmente.
Um aspecto arquetípico da tragédia familiar
Agora que já examinamos cuidadosamente a tragédia familiar no seu aspecto pessoal, não parece prematuro voltar nossa atenção ao seu possível aspecto arquetípico, porque um complexo paterno que se manifesta de forma negativa o suficiente para formar um tabu sexual na alma da filha vale a pena ser acompanhado em todas as suas projeções, símbolos e aspectos.
Campos de masculinidade na psicologia das mulheres
Quando consideramos a existência de um complexo paterno ou de masculinidade em geral na psicologia das mulheres, temos de desdobrá-lo em três aspectos ou campos.
O primeiro campo é o aspecto humano, o complexo paterno como tal, e suas projeções sobre outros homens reais. Esse é o âmbito pessoal.
Em segundo lugar, temos o animus. O animus é inato em uma mulher enquanto um germe que pode desenvolver determinadas características, na maioria das vezes através do complexo paterno. Esta figura de animus funciona como um tipo de ponte, pois, por um lado ele pertence à vida pessoal da mulher, na qual representa o lado inconsciente da sua mente; por outro lado, está à vontade no inconsciente coletivo. Oculto atrás do animus pessoal está um animus maior, e atrás deste um ainda maior, e assim por diante. Desta forma, um animus positivo conduz ao lado mais positivo de Deus, enquanto que um animus negativo conduz para baixo – até mesmo até Satã!
Isso nos leva ao terceiro aspecto da masculinidade na alma de uma mulher, que pode ser a imagem, nela, da própria divindade masculina. O fato de uma mulher poder ter um relacionamento afetivo com este poder divino prova que, pelo menos, uma imagem ou reflexo dele deve viver na sua alma, o que nos permite chamar essa imagem de terceiro aspecto de masculinidade nela.
Quando o complexo paterno se constela na alma que se desenvolve de uma mulher, podemos discernir não somente seu efeito naquilo que chamamos de seu destino mundano, mas também sua influência no desenvolvimento do seu animus e, por último, no seu crescente relacionamento com a espiritualidade. A diferenciação entre os três campos da masculinidade na alma de uma mulher torna-se mais difícil porque, nas projeções, esses campos estão, freqüentemente, interligados. Como sabemos, o Pai Celestial é geralmente sobrecarregado com qualidades humanas. E nem precisamos enfatizar o quanto um homem humano é um tipo de Deus aos olhos de uma mulher (o que é igualmente freqüente, um tipo de animus-demônio!).
Mas voltemos ao caso e consideremos os três aspectos do complexo paterno e suas projeções na forma como se manifestam aqui. Já mostramos a influência que o complexo paterno teve em seu destino mundano. Na conversa a seguir a Grande Mãe lidará com o resultado fatal que o complexo paterno teve no desenvolvimento do animus da paciente. E, mais tarde, chegaremos a um insight quanto aos seus efeitos sobre a imagem espiritual, ou conceitos religiosos, na alma desta mulher.
Décima oitava conversa com a Grande Mãe
Grande Mãe: Seu animus emaranhou-se com a sombra do seu pai, e, desta forma, perpetrou os horrores familiares continuamente em seu inconsciente. E você projeta este animus criminosamente infectado em homens reais. Como você espera que eles a amem? Através do seu animus trabalha a sombra do seu pai, e através desta sobra o demônio! O diabo queria matar os membros da sua família, um depois do outro – e conseguiu! Toda sua família faleceu, exceto você. Você teve que viver cinco vidas, por assim dizer. Teve que sacrificar uma vida pessoal normal. Viveu a vida da família.
Paciente: Devo me separar da família e agora viver uma vida pessoal?
Grande Mãe: Não sei dizer. Talvez você fique ocupada até sua própria morte tentando realizar a missão familiar. Neste caso, não haverá vida pessoal, apenas o sacrifício desta, que deve ser feito voluntariamente. Sua missão na vida pode acabar sendo a de ser a missão impessoal de olhar para a face do diabo sem capitular ao seu fascínio. Agora que você olhou para seu complexo paterno no âmbito pessoal, você deve tentar livrar o seu animus da sombra do seu pai, a menos que o diabo seja bem-sucedido ao agarrá-lo mais firmemente.Veja a tragédia em toda a sua extensão, e seja dura com ela. Não se impressione somente por sua própria insatisfação enquanto “mulher mal-amada”, mas também tente ver a tragédia familiar como um acontecimento impessoal, cujas ramificações trabalham no inconsciente coletivo assim como na sua alma pessoal.
Paciente (desesperadamente): Diga-me, Grande-Mãe, tenho de atravessar todos aqueles horrores de novo?
Grande-Mãe: A idéia é que o inconsciente coletivo contém o incesto de pai com filha e que todo mundo está inconscientemente conectado a isso. Você está agora conscientemente passando por isto, e isso é mais do que a maioria das pessoas faz. Você o faz pela família, mas também faz por um círculo muito maior de seres humanos. E vai resultar num melhor relacionamento com eles. As pessoas o sentirão.
A paciente perguntou à sua analista exatamente por que o incesto é proibido. A analista respondeu:
“Os resultados psicológicos do incesto não são tão bem conhecidos quanto se supõe; psicologicamente, o incesto estreita os horizontes; no caso de um incesto de pai com filha, a filha sempre permanecerá criança. Uma vez que o ‘pai-sempre-sabe-de-tudo’, ela nunca vai assumir a responsabilidade e, conseqüentemente, não vai se desenvolver.”
O animus agora recebe um tipo de tratamento da Grande Mãe, e o papel da paciente consiste em desejar que isto ocorra na sua alma.
Décima nona conversa com a Grande Mãe
Grande Mãe: Você precisa, mais uma vez, unir-se completamente a mim, e sua disposição a fazê-lo é o que o seu animus precisa para se curar. Dê-me seu amor; ele não poderá possuí-la assim. Seu desejo de suportar é a sua contribuição necessária ao meu ato de exorcizar o demônio do incesto de você, curando assim o animus.
Paciente: Eu quero.
Grande Mãe: Submetendo-se a mim, você separa seu animus da sombra do seu pai, e, conseqüentemente, do diabo. Assim cura a neurose do seu animus, que é a sua própria. Ele precisa perceber que não é a sombra do seu pai nem o diabo. Essas identificações causaram uma inflação nele. Está muito doente e totalmente esmagado, por carregar a sombra do seu pai.
Paciente: Ele não está se comportando mais como uma mulher?
Grande Mãe: Sim, na medida em que se identifica com sua anima, enquanto permite sua fornicação com Satã. Isto é o que acontece com você na sua alma, quando você é tomada por ataques nervosos.
Paciente: Este diabo particular é o tabu do incesto?
Grande Mãe: Ele não é o tabu, é o incesto. Ele entra furtivamente na sombra do seu pai quando acontece o incesto em casa, e então fornica com seu animus-possuído-pela-anima.
Paciente: Sinto-me quase insana agora.
Grande Mãe: Você pode agüentar. Você deve agüentar!
Paciente: A quem devo buscar, se a família toda foi infectada?
Grande Mãe: A mim! Eu mostrei-lhe todos esses horrores porque você deve ter fé em mim; você deve ficar suficientemente impressionada para manter-se comigo! Você nunca se tornará inteira se não puder libertar sua fé, esta fé que está bloqueada no inconsciente pelos horrores. Você está à beira da insanidade agora, mas você pode ir em frente. E aí a loucura do seu pai vai morrer em você. Você e eu estamos agora realizando uma coisa completamente irracional, mas desejar sofrer isso na sua alma tem, para você, o significado de um sacrifício, trazido e cumprido livremente. Você está humilde e obediente agora, e corajosa. Agora que você está do meu lado, o animus pode renascer através de você. Nossa união é o renascimento dele!
Dois dias mais tarde, ouvimos a paciente falando com sua Grande Mãe novamente:
Vigésima conversa com a Grande Mãe
Paciente: Tenho relido nossas últimas conversas, mas agora elas não me impressionam mais como sendo particularmente importantes, enquanto, no começo, pareciam ter o significado de um grande ato de exorcismo, exorcismo do diabo, aplicado a mim mesma.
Grande Mãe: Eu estava exorcizando o diabo de você, e você sabe disso. Mas as palavras não podem expressar isto. Foi além das palavras.
Paciente: Senti como se você estivesse juntando todo o meu ser e toda a minha vida passada em um enorme abraço, para unir-me consigo, assim retirando-me do animus.
Grande Mãe: Foi uma crise gigantesca.
Paciente: O que aconteceu com o animus?
Grande Mãe: Se ele não fosse imortal, teria morrido! Deixe-o comigo, agora. Sua tarefa é cuidar de você mesma e da sua sombra.
V. Desenvolvimentos
Quando a paciente leu os últimos diálogos e pensou novamente neles, começou a perceber quais poderiam ser as conseqüências de um relacionamento entre sua própria sombra e um animus que era depravado o suficiente para ter um caso secreto com Satã. Percebeu que esta sombra estava dando todo seu sangue
(na realidade, o sangue da própria paciente), para o conglomerado fatal de animus, sombra do pai e demônio. Tal insight significou um passo importante no seu caminho de individuação, e a cada volta que subia na espiral, ela ganhava um ponto de vista mais extenso, que incluía o futuro assim como o passado.
Depois do ato de exorcismo do demônio quase medieval que a Grande Mãe fez com ela, a paciente ficou livre para voltar-se para o terceiro campo da masculinidade na sua alma, que discriminamos como sendo “a imagem da divindade masculina ela mesma”, com a qual um animus positivamente desenvolvido se vincula, capacitando assim o ego a participar.
Poemas Religiosos
O animus criativo já havia aparecido (além das inspirações musicais), numa série de poemas religiosos que a paciente, nesta época, havia começado a escrever. Os conteúdos de um desses poemas desempenhará um papel em seu desenvolvimento posterior. Eles dão uma idéia clara da influência que seu complexo paterno negativo tinha sobre seus conceitos religiosos.
Neste poema, chamado “A Harpa de Deus”, compara sua alma com uma harpa, que oferece a Deus. Descreve o trabalho que teve para afinar as cordas com precisão, e como tirou o pó e poliu a moldura até que ficasse brilhante. Tendo realizado estas cuidadosas preparações, ofereceu sua harpa a Deus, rezando para que Seus dedos divinos pudessem tocar as cordas. Quando considerou seu poema terminado, uma coisa curiosa e totalmente inesperada aconteceu. Ouviu uma voz masculina, a voz de Deus, dizendo a ela no ritmo e nas rimas do seu próprio poema, que Ele, Deus, não gostaria de ser perturbado logo agora. E, além disso, Ele não queria sua harpa humana de jeito nenhum. Já havia selecionado o universo enquanto harpa, cujas cordas são – os raios do sol.
Até aqui, o poema claramente demonstra que o complexo paterno negativo afetava até este nível superior, o nível no qual Deus rejeita sua harpa (a saber, seu amor). No nível humano, como sabemos, seu amor de mulher pelo sexo oposto era incapaz de mobilizar qualquer parceiro. Em vez disso, fascinada pelo animus, permitiu que ele a possuísse e torturasse. E no nível espiritual, agora Deus se recusa a tocar em sua harpa – a aceitar seu amor. Mas, nessa época, poderosas personalidades a estavam sustentando – figuras arquetípicas, assim como personagens humanos.
Ela teve a oportunidade de ler seu poema, incluindo a resposta de Deus, para Jung. [10] Esperava que ele desse uma gargalhada, e risse especialmente da resposta de Deus, mas isto não aconteceu. Jung não levou absolutamente na brincadeira; na verdade, considerou tudo muito seriamente, dizendo-lhe que não deveria deixar as coisas assim. Deveria encontrar uma resposta para Deus, uma resposta que pudesse inspirar Deus a tornar-se consciente não somente dos belos raios de sol, mas também da Sua obrigação de tocar a harpa das almas humanas. Foi Deus quem criou os seres humanos, tendo portanto que aceitar Sua parte da responsabilidade por suas almas.
Este ponto de vista a respeito de seu poema, que Jung disse que seria a resposta que ele daria para Deus, a princípio não ajudou a paciente em nada. De alguma forma, não se harmonizava; na verdade, interferiu com seu próprio relacionamento com Deus. Talvez a dificuldade fosse que ela ainda não havia formado um conceito claro da imagem de Deus que habitava sua alma. Até agora, de acordo com o dogma cristão ortodoxo, ela entendia Deus como sendo “absoluto”, ou seja, existindo por si mesmo e destacado que quaisquer condições humanas. Mas, conforme veremos, o Deus sobre o qual a Grande Mãe e a paciente falam nas próximas conversas é mais um Deus “relativo”, ou seja, um Deus cuja existência de certo modo depende de um sujeito humano, para um relacionamento mútuo e necessário. No caso da nossa paciente, este Deus, ou imagem de Deus, era, a princípio, negativamente tonalizado – conforme acima mencionado – por causa das ramificações do complexo paterno negativo da paciente, estendidas até o nível divino. O objetivo agora era purificar esta imagem.
A Grande Mãe aborda esta negatividade nas seguintes conversas e ajuda a paciente a encontrar um relacionamento com ela, dirigindo a sua atenção para a qualidade coletiva do seu distúrbio, e para sua origem no inconsciente coletivo.
Vigésima primeira conversa com a Grande Mãe
Paciente: Tenho um sentimento horrível de que todo mundo se retirou de mim. Há vazio em tudo ao meu redor. Deus retirou-se para as nuvens.
Grande Mãe: Talvez Deus se sinta tão desolado quanto você, por ter-se recusado a tocar sua harpa. Pode ser Seu humor que Ele projeta em você.
Paciente: Você quer dizer que Ele toca Seu mau-humor em minha harpa? Então ele toca mal.
Grande Mãe: E talvez você seja uma má ouvinte.
Paciente: O meu vazio é o Vazio de Deus? A anima de Deus está projetada em mim?
Grande Mãe: Não somente em você. Na humanidade, poderíamos dizer. Deus quer tornar-se consciente, e ao mesmo tempo não o quer. Sua ambivalência acumula-se sobre a humanidade. Você pode ser uma das que serão chamadas a socorrer Deus em Seu estado de nigredo (escuridão).
Paciente: Como posso fazer isso?
Grande Mãe: Esteja consciente da nigredo em você mesma, mas sem considerá-la pessoal. É de todo mundo. Você não pode salvar o mundo nem Deus. Mas você pode salvar uma parte infinitesimal dos seus problemas, de acordo com o grau que desejar sofrer você mesma.
Paciente: Não posso ver Deus com clareza. Vejo nuvens, em vez dele.
Grande Mãe: Você projeta seu animus em Deus. Isto é contratransferência, ou vice-versa. Seja muito humilde para que Deus a atinja. Podemos comparar a condição de Deus ao estado mental que precede a criatividade. Deus precisa projetar este desespero causado pela nigredo sobre a humanidade, porque está inconsciente dele. Se não existirem seres humanos suficientes para carregar a nigredo de Deus nos ombros, então é provável que haja uma catástrofe. Mas se você souber o que está carregando quando se sentir miserável e doente, se você não sentir seu sofrimento como meramente pessoal, mas compreender que um arquétipo do inconsciente coletivo está tocando você, então você poderá suportá-lo melhor. Percebe? Carregar sua própria cruz significa carregar também uma parte da cruz de Deus.
Paciente: Se reajo à minha desolação julgando toda a minha análise um erro, então, isto é, evidentemente, uma opinião do animus.
Grande Mãe: Sim, tais pensamentos são opiniões do animus. Mas o sentimento de nigredo, como podemos chamá-lo, precisa ser separado delas e, por favor, não reprimido.
Vigésima segunda conversa com a Grande Mãe
Dois dias mais tarde, o diálogo prosseguiu da seguinte maneira:
Paciente: Se Deus quer transplantar seu lado negativo para mim…
Grande Mãe: Preciso corrigir isso. Se Deus realmente quisesse isso, não haveria a menor chance de você suportá-lo. Você não está apta a carregar uma encarnação do diabo. Somente numa região superior uma encarnação desta poderia acontecer. Se Deus a escolhesse para um tal propósito, você certamente morreria ou ficaria louca. Você não é capaz de conter a imagem do anticristo. Deixar esta idéia tomar conta de você seria uma inflação.
Paciente: Eu não sei se tive esta idéia ou não. Na verdade, não acredito que tenha tido.
Grande Mãe: Você a teve de certa forma, talvez inconscientemente. Esteja consciente da sua sombra pessoal, e compreenda através dela que Deus tem uma sombra também, Seu filho, Satã. Deus deve tornar-se consciente da Sua sombra. Ele ainda não está suficientemente consciente dela. Este é o estado de nigredo de Deus, e sua imagem nas almas humanas gera o problema do mundo. Uma partícula da difícil condição de Deus tem que ser enfrentada em cada ser humano. Sua história familiar é meio pessoal, meio impessoal. É como uma escada unindo os dois campos. A recém-adquirida consciência do seu aspecto pessoal, assim como do seu aspecto de animus agora a ajudarão a acertar-se com Deus, pois todo o tempo em que você estava brigando contra seus horrores familiares, você também estava brigando com o diabo, que é uma parte de Deus.
Paciente: O diabo é a parte de Deus que não aceitava minha harpa?
Grande Mãe: É aquela canção particular que Deus não quer tocar em sua harpa. Deus prefere deixar esta parte para o diabo. Ele reserva os raios de sol e os hinos cósmicos para si mesmo.
Como resultado desta conversa, a paciente agora tenta olhar para sua história interna em seu aspecto espiritual. Primeiramente, chama tal aspecto de seu reflexo no céu. Mas neste contexto, palavras como reflexo, miragem, imagem e assim por diante parecem estar fora de lugar. Ela acha que deveria mudar seu posto de observação para poder aprender a olhar para sua tragédia humana como se fosse a imagem, em miniatura, de um drama universal. Tenta até mesmo ver sua própria vida como um infinitesimal símbolo terrestre das evoluções celestiais.
Para encontrar esse ponto de vista espiritual, ela agora parte em uma jornada simbólica para uma terra desconhecida, sob a supervisão da Grande Mãe, esperando obter o novo ponto de observação que deseja. Experimenta tal viagem como uma aventura extremamente perigosa, que descreve numa longa série de conversas com a Grande Mãe.
Os diálogos contêm uma fantasia ativa da qual uma versão abreviada será apresentada em forma de narrativa. A paciente chama sua fantasia:
A equilibrista da corda bamba atravessa um abismo
Nesta fantasia, a paciente está de pé na beira de um precipício que está entre dois domínios: seu ponto de vista antigo, terrestre, e uma concepção de vida mais espiritual à qual agora aspira.
Uma corda liga os dois lados do abismo, e aparentemente a corda está lá como uma ponte. Vai ser uma travessia na corda bamba! Num primeiro momento, ela recua do perigo que isto representa. Mas a Grande Mãe a tranqüiliza, dizendo que ela mesma – a Grande Mãe – é a corda, e que a paciente não poderá passar por uma tragédia porque está firmemente ligada a esta corda, mesmo que somente por um dedo. Além disso, diz a Grande Mãe, a paciente tem um bastão de equilíbrio em suas próprias mãos, ou seja, seus instintos. Conseqüentemente, nossa pobre e destreinada equilibrista decidiu aventurar-se e atravessar.
Mas quando já tinha percorrido metade do caminho, foi imprudente o suficiente para olhar para baixo nas profundezas, e lá viu seu animus e sombra valsando juntos e se beijando! A visão fez com que ficasse tonta. Perdeu o equilíbrio e caiu, mas permaneceu pendurada de ponta-cabeça, na corda à qual estava presa somente por um dedo do pé.
Foi exatamente este escorregão determinado pelo destino que separou os amantes. A paciente estava agora pendurada entre eles, de cabeça para baixo, como se fosse uma espada separando-os. A necessidade de acabar com tal tortura faz com que ela se lembre do bastão de equilíbrio (seus instintos). Tenta alcançar o fundo do precipício com o bastão, para fazer contato com a terra (sua própria terra). Mas o bastão não é comprido o suficiente. Como ela pode aumentá-lo? Finalmente, sua agonia faz com que chame a sombra e implore que venha em sua ajuda. E então, depois da reunião com sua sombra, seus instintos se vivificam e o bastão cresce mais e mais. Quando toca o fundo do abismo, ela consegue, apoiando-se com força nele, retomar a posição vertical na corda e então prosseguir seu caminho até alcançar o outro lado da ravina.
Evidentemente, no papel é fácil dizer que a paciente se uniu com sua sombra, mas na realidade, ela estava em necessidade extrema quando pediu ajuda, e seu chamado para a sombra foi emitido em pavor e agonia. A paciente expressou assim sua necessidade:
Uma Conversa com a Sombra
Paciente: Sombra! Deixe este animus! Una-se comigo! Você pertence a mim!
Sombra: Sim! Agora que o diabo foi exorcizado dele, este animus nada mais é do que uma massa de miséria sem nenhuma atração. Eu não estou interessada nele, eu não! Prefiro pequenos flertes com homens reais, e quero chegar a eles através de você!
Paciente: Você disse “pequenos flertes”. Tudo bem. Mas eu não quero que você me inunde com seu apelo sexual.
Sombra: É pegar ou largar!… No fim, o animus pode se recuperar e eu volto para ele!
Vigésima terceira conversa com a Grande Mãe
Grande Mãe: Você percebe o erro que cometeu?
Paciente: Oh, sim! Eu deveria tê-la aceitado totalmente, enquanto ela estava querendo vir a mim.
Grande Mãe: Você morre de medo dela e dos instintos que podem inundar você.
Através desta conversas, um conhecimento mais profundo atingiu a paciente, como um raio de luz. Algo que ainda estava escuro e inacessível nela foi subitamente iluminado.
Ela percebeu que sua idéia de masculinidade era um mal-entendido; que estava envolvida na escuridão por opiniões que pertenciam a algum outro lugar. Quando era confrontada com a masculinidade, seja em seu aspecto humano, no âmbito do animus, ou na esfera espiritual, seu pânico era, no fundo, um medo de ser sobrepujada, arrebatada por suas próprias sensações, emoções e instintos. Seu pânico sexual era evocado pelas partes inconscientes da sombra que tinha projetado sobre a masculinidade, junto com a demonstração desavergonhada da sua sombra de necessidades sexuais e luxúria. Sua conscientização de que esta projeção tinha que ser recolocada em si mesma deu um fim à diversão experimentada pelo casal obscuro que valsava e se beijava no abismo.
Simbolicamente, foi este o momento no qual seu bastão de equilíbrio instintivo tocou o chão. Foi também o momento no qual poderia recuperar sua posição de pé e prosseguir na corda, apoiando-se com força no bastão com o qual continuou tocando o chão da ravina enquanto caminhava. Este contato repetido com sua própria profundidade a sustentou, e assim ela pôde alcançar o outro lado da ravina. Ali estava – como havia prometido a Grande Mãe – a Terra Prometida, o lugar espiritual que agora poderia começar a explorar, o “mundo-atrás-da-sua-neurose”, como o denominou. Neste mundo, ela teve esperança de encontrar Deus.
VI – Uma permanência no mundo espiritual
Ai dela! O primeiro encontro que a paciente teve no seu “mundo por trás da neurose” não foi definitivamente aquele que ela desejara! A primeira figura que apareceu para encontrá-la foi o próprio Satã!
Satã imediatamente começou uma conversa desencorajadora com ela.
Conversa com Satã
Satã: Você acha realmente que pode sustentar sua posição? Criança tola! Você não tem a menor chance de resistir a mim!
Paciente: A Grande Mãe está me protegendo.
Satã: Eu sou superior à Grande Mãe. Pertenço à quaternidade, ela não.
Aqui a conversa acabou abruptamente, porque a paciente não conseguiu encontrar uma resposta às impudentes palavras de Satã. Mas a paciente tinha uma analista a quem recorrer, e esta analista tinha uma resposta à mão. A analista disse: “Satã está inflado, se pensa que é superior à Grande Mãe”, e fez o seguinte esquema da quaternidade:
Deus Pai
Cristo ————————————————-Satã
Espírito Santo, Maria, Sofia,
Grande Mãe, Terra
Assim equipada, a paciente sentiu-se mais bem armada contra os possíveis ataques por parte do seu poderoso oponente. Arriscou-se a uma conversa posterior com ele, e desta vez era ela mesma que atacava.
Conversa com Satã
Paciente: Agora ouça-me, Satã! Minha analista me informou que, enquanto Terra, a Grande Mãe pertence à quaternidade tanto quanto você! Você não está acima da Grande Mãe, e não vai arruinar meu relacionamento com ela.
Satã: Eu já o arruinei para você, e você sabe como o fiz.
Grande Mãe: É verdade que eu senti como se ela estivesse me abandonando. Quase gritei em desalento. Mas agora percebo que era você que estava se metendo no jogo. Você tentou nos separar! Vá embora! Eu quero a Grande Mãe, não você!
Satã: A Grande Mãe tem sombra também. Eu sou esta sombra!
Paciente: Não, você não é! Do mesmo modo como a Grande Mãe tem uma sombra, você se relaciona com Cristo. Agora me deixe!
Décima quarta conversa com a Grande Mãe
Grande Mãe: Bem-feito! Desta vez ele não conseguiu atingir você.
Paciente: Mas somente graças a você! Minha consternação anterior foi causada pelos meus pensamentos confusos a seu respeito e do Self.
Grande Mãe: Sua analista lhe disse que eu sou a Terra. E enquanto Terra, pertenço à quaternidade. Eu entro nela em oposição ao Deus Pai.
Paciente: Você vai me abandonar?
Grande Mãe: Estou sempre presente. Mas depende de você estar consciente disto ou não.
Evidentemente, Satã não desistiu assim tão facilmente. Ele nunca mais atraiu sua vítima abertamente; em vez disso, usou meios ocultos para tentá-la como antigamente. Usou distorcidamente a ambição da sua sombra e o poder quase irresistível do seu animus para inspirar a paciente em sua música, ao custo da análise. A paciente, sem ter reconhecido isto como um plano de Satã, falou com a Grande Mãe a respeito de sua tentação.
Décima quinta conversa com a Grande Mãe
Incluindo uma conversa curta com o Animus
Paciente: Sinto-me terrivelmente tentada a voltar para a música, e não sei se seria certo ou errado fazê-lo.
Grande Mãe: Você pode abandonar a psicologia junguiana e ser uma artista na música outra vez. Você é suficientemente talentosa para isso. Ou você pode ir por caminhos mais profundos da individuação. Você está na encruzilhada agora, e deve tomar uma decisão.
Paciente: Sei que meu objetivo é a individuação, mas estou terrivelmente tentada a voar com o animus até as nuvens. Este é o meu teste.
Grande Mãe: Se você sabe qual o seu objetivo, então tome rapidamente sua decisão. Não continue se torturando.
Paciente: Este é um verdadeiro sacrifício.
Grande Mãe: Não precisa me dizer isso, eu sei. É seu verdadeiro encontro com o animus. Se você ficar fascinada, vai segui-lo e tornar-se uma artista novamente. Você é livre para fazê-lo. Ou pode sacrificar o fascínio escolhendo tornar-se mais e mais consciente do seu animus.
Paciente: Aqui estou. Pertenço a você! Tenho reverenciado meu animus como se fosse Deus. Preciso sacrificá-lo agora , ou nunca serei capaz de ver Deus! Este é meu inferno. Pensei que inferno fosse ser neurótica e doente, todas essas coisas, mas agora percebo que a causa da minha neurose é minha inclinação por ser fascinada pelo animus. Quero agora argumentar com ele sobre isso.
(a paciente agora dirige-se ao animus)
Paciente: Meu animus, por que você me fez lutar com a música por mais de quarenta anos?
Animus: Ah, por passatempo.
Paciente: Não me ridicularize.
Animus: Meu tom é de provocação, mas estou falando a verdade. Seu inconsciente lutou contra os horrores familiares, mas você mesma não estava apta para fazê-lo. Então o fizemos sem você. Demos ao seu ego uma ocupação para que você não estragasse nosso trabalho ou nos interrompesse.
Paciente: Quem são “nós”e “nos”?
Animus: A Grande Mãe me disse para que eu me ocupasse com você enquanto ela lidava com seus problemas inconscientes. Ela lhe disse mais de uma vez que viveu sua vida por você.
Grande Mãe (interrompendo o animus e dirigindo-se à paciente): Isto é verdade. Foi ele que fez com que você continuasse com a música. Mas eu era um motivo ainda mais profundo do que ele. Eu fiz com que ele a empurrasse. Eu lhe dei um passatempo para evitar que ele interferisse no meu trabalho, que era preparar seu inconsciente para a posterior individuação. Esta individuação é o objetivo agora.
Tendo saído do confronto com Satã e com seu animus inteira, a paciente teve um sonho importante que clareou seu céu psíquico de maneira maravilhosa:
Sonho:
A paciente está com pressa para chegar à estação, mas não consegue. Ela é surpreendida por um menino numa moto, que grita para ela na pura alegria da velocidade. Ele a ultrapassa e já está a uma boa distância à sua frente, quando ela o vê caindo da moto enquanto ia a toda velocidade. Sua cabeça bate nas pedras do pavimento. Isto acontece três vezes. A paciente não pode ajudá-lo porque tem que pegar o trem. Está atrasada. Além disso, os acidentes acontecem bem à frente, e a distância é muito grande para que a percorra. Ela pede um táxi, mas dizem-lhe que naquele dia não havia taxis. Ela então tenta correr para a estação, mas não consegue, sua pernas parecem chumbo.
A cidade na qual está lutando para ir é a capital do seu país de origem, e ela dá um jeito de chegar à praça principal. Agora fica impossível prosseguir por causa de uma grande procissão de mulheres, evidentemente uma demonstração, que está se movimentando e bloqueando o caminho. As mulheres vão encenar uma peça ou uma alegoria na praça. A paciente agora está em companhia de outra mulher. Juntas encontram lugares num tipo de camarote particular de onde podem assistir à performance. Ainda não há ninguém na plataforma, e elas podem escolher livremente os lugares. A paciente queria sentar-se na primeira fila, mas quer ficar junto da sua companheira e se contenta com lugares na fila de trás. Entretanto, fica pensando se tudo não passa de um erro, porque elas estão no que parece ser o camarote real.
Explicação do Sonho
O sonho afirma que a paciente estava certa ao escolher percorrer o caminho da individuação posterior, em vez de dar ouvidos às tentadoras sugestões do animus. O garoto de moto é um animus jovem, e provavelmente foi ele que recentemente a tentou a deixar sua análise em nome dos eternos arrebatamentos da música com ele. Voar no céu é natural para um animus. Esta tendência dele aparece na velocidade, que leva à calamidade, mas sua natureza imortal o capacita a sobreviver a tais desastres. Se a paciente tivesse ido com ele, ela teria encontrado o que teria sido um acidente fatal para ela. Ela conseguiu evitar tal armadilha.
No sonho, estava certa ao deixar o animus cuidar de si mesmo, mas estava errada no que diz respeito ao seu objetivo. O objetivo parecia ser pegar o trem. Um táxi não serviria; deveria ir a pé (que é o meio mais individual de avançar, enquanto o taxi é um meio mais coletivo). Tenta correr, mas suas pernas parecem chumbo. O motivo do peso, quando ocorre em sonhos, geralmente indica que não vamos conseguir atingir o objetivo pelo qual estamos lutando. Temos que trocá-lo por algum outro objetivo. É exatamente isto que acontece no sonho. A paciente esquece do trem logo que chega à praça principal da cidade, onde fica absorta olhando a procissão.
Na realidade, a fama é o trem que ela vinha perseguindo. Deve agora abrir mão deste desejo em favor do abrangente objetivo da individuação. O sonho lhe dá mais detalhes a respeito do seu destino real, dizendo-lhe que há uma praça no centro da cidade e no coração do seu país natal, onde tem suas raízes. É uma mandala que simboliza o self. Na realidade externa, um movimento nacional foi erigido nesta praça depois da última guerra, em honra da libertação dos nazistas e seu enorme animus, Hitler. As mulheres do sonho iam encenar uma peça ou uma alegoria em volta deste monumento, e as associações da paciente nos informam sobre seu caráter, uma vez que a peça se relaciona com um famoso poema escrito por uma poetisa bem conhecida do seu país. O poema descreve um festival, celebrado por mulheres, em honra da libertação da escravidão interna, e o sonho usa este símbolo para expressar que “as mulheres” (isto é, todas as mulheres dentro da paciente, a totalidade de seu ser) estão celebrando o sacrifício de serem possuídas pelo animus em favor e em honra do Self. Esta performance, da qual ela é uma espectadora, está acontecendo no centro da sua própria alma.
Está junto com sua sombra, e por ela, aceita sentar na fila de trás da tribuna. Temos de ser gratos pela humildade da sombra, que evita que ela escolha os lugares na primeira fila, uma vez que a primeira fila parece ser a tribuna real, para a qual foram admitidas. E, com certeza, não é o ego mas o Self que deve se sentar na primeira fila. Esta tribuna é um símbolo daquilo que a paciente chamou de seu “posto de observação espiritual” que está em seu “mundo por trás da neurose”, que a Grande Mãe a ajudou a atingir do outro lado do abismo. No sonho, a paciente não entra numa inflação porque está consciente da sua sombra e desejosa de assumir a responsabilidade por ela.
Este importante sonho e sua explicação abriram os olhos da paciente, de modo que ela começou a perceber o valor de sacrificar as tentações do animus em favor do significado abrangente do Self.
A partir deste ponto, ela tentou familiarizar-se com o aspecto espiritual dos seus problemas através do contato posterior com suas figuras internas e seus pontos de vista suprapessoais. Seu progresso se acelerou.
Vigésima sexta conversa com a Grande Mãe
Paciente: Parece-me que meu problema anterior com o animus deve agora ser encarado em um nível superior, ou seja, em relação a Deus.
Grande Mãe: Sua relação com Deus mudou desde que aquele demônio, a sombra do seu pai, foi exorcizado do seu animus e desde que a sua sombra permaneceu separada dele.
Paciente: Quando eu tento falar com Deus, sinto-me como se estivesse de novo pendurada de ponta-cabeça na corda, como na fantasia.
Grande Mãe: De ponta-cabeça significa que você deve se aproximar de Deus não com a sua cabeça, mas com suas partes inferiores.
Estas palavras, ditas pela Grande Mãe, lembraram a paciente da sua sombra, que talvez pudesse ser útil ao fazer uma aproximação favorável com Deus.
Ela enfiou tal idéia em sua sombra da seguinte maneira:
Conversa com a Sombra
Paciente: Sombra, você pode me ajudar a me aproximar de Deus com meu sentimento?
Sombra: Eu sei como me sentir a respeito de homens. É muito simples, você só tem que se sentir feminina.
Paciente: De que modo?
Sombra: Os homens podem nos ajudar com aquilo que não somos. Temos de nos sentir muito femininas, muito fêmeas. E os homens virão. Ame seu corpo feminino, ame sua necessidade de homens. E então eles virão. Eu me sinto superior aos homens, porque sei que eles vão cair por mim. É um pequeno truque. Nós significamos prazer para eles. Agrade-os sendo o prazer deles. Eles não conseguem resistir, eles vêm. Conseguimos qualquer coisa deles se fazemos o papel ultra-feminino, o papel do prazer. Nunca se esqueça do quanto significamos prazer para eles!
A paciente agradece à sombra por sua informação e dirige-se à Grande Mãe.
Vigésima sétima conversa com a Grande Mãe
Paciente: Preciso admitir que nunca pude me identificar com minha própria feminilidade, e que nunca pensei em humildemente representar o prazer de um homem.
Grande Mãe: Este seria seu pecado contra Deus. Você não aceita seu destino enquanto não aceitar seu sexo. E não é suficiente aceitar seu sexo enquanto sofrimento, o que você fez. Sua sombra o aceitou como um dom. Ela gosta de agradar os homens e está bem satisfeita com seu papel. Assim, como você pode ser um recipiente para Deus, se reprime a função natural de sua psique feminina, daquelas partes criadas com o propósito da concepção? A concepção espiritual e o caminho para ela podem lhe ser ensinados por aquilo que seu corpo pode lhe dizer. Assim que o sentimento for constelado através dos seus instintos, você não terá mais que implorar a Deus que toque sua harpa. Ele mesmo desejará ardentemente fazê-lo.
Desta maneira, a tentativa de enriquecer-se com partes da sombra ainda inconscientes permitiu mais uma vez que a paciente desse um passo adiante no caminho da individuação.
Ela agora tentava sentir de que forma poderia agradar a Deus. Evidentemente, seu animus imediatamente lhe disse que discordava do seu plano libidinoso. Mas ela sabia como responder a ele, conforme veremos na próxima conversa.
Conversa com o Animus
Paciente: Animus, fique quieto! Quero sentir a proximidade de Deus através de uma identificação ativa com a vida que Ele queria que eu vivesse. Assim, preciso antes de tudo me sentir confortável em minha própria feminilidade.
Animus: Eu sou seu mensageiro para Deus! Vou agora voar até Ele e lhe dizer essas coisas por você.
Paciente: Obrigada, mas eu vou dizer-Lhe eu mesma.
Um Sonho Arquetípico
Alguns dias mais tarde, um sonho muito curto mas extremamente arquetípico foi-lhe dado:
Ela ouve uma voz masculina, a voz de Deus, chamando-a para socorrê-lo. Em vez de usar a palavra comum “socorro”, Deus repete muitas vezes, na linguagem da paciente, a antiga palavra bíblica “succor” (auxílio).
Este é todo o sonho.
Este sonho foi seguido por uma conversa com a Grande Mãe, na qual esta explica como os seres humanos podem ser úteis a Deus.
Vigésima oitava conversa com a Grande Mãe
Grande Mãe: Dr. Jung uma vez lhe disse que os seres humanos são os olhos e os ouvidos de Deus e que eles devem dar consciência a Deus através das suas vidas. Parece agora que Deus chamou-a para ajudá-lo porque Ele quer o pedaço de consciência que você pode dar a Ele.
Paciente: Tive uma fantasia difícil que quero relatar-lhe. Dizia que Deus estava bravo porque os homens tinham roubado partes Dele que Ele não queria que estivessem em mãos humanas. Tais partes eram segredos naturais a respeito da fissura nuclear, e o equivalente disso, o conhecimento de Jung a respeito da divindade. Deus não pretendia que os seres humanos soubessem do seu lado sombrio. Pretendia permanecer inconsciente de si mesmo. Quer reprimir essa coisa desagradável. Ele tem resistências. Portanto Jung e seus discípulos, todos eles, estão danados aos Seus olhos.
Grande Mãe: O perigo para todos vocês não é imaginário. Você mesma experimentou uma tensão enorme; quero dizer a tensão que havia em sua alma quando você teve de se tornar consciente dos lados sombrios em você mesma, ou quando um processo criativo estava prestes a se manifestar em você. Talvez Deus crie coisas muito positivas assim que esteja suficientemente consciente para se colocar em ação. Mas se Ele não se tornar consciente do seu filho Satã, então Seu próprio lado sombrio poderá ser projetado em pessoas humanas. Ele pode dar vazão a seus ressentimentos com a humanidade numa catástrofe mundial. Subseqüentemente, acusará Dr. Jung e Professor Einstein de a terem causado. Eles serão os bodes expiatórios.
Agora, ouça: você está muito próxima de Jung e evidentemente será destruída com ele se tiver que acontecer o pior. Mas você, sendo uma mulher, pode fazer uma coisa que o Dr Jung, sendo um homem, não pode. Você pode seduzir Deus! Você e outras mulheres podem despertá-Lo. Fazer isso seria menos perigoso para você do que para Jung, porque um homem tende a provocar o anseio masculino de Deus pelo combate. Entretanto, Deus não precisa tornar-se consciente da Sua masculinidade, mas do Seu lado sombrio, o qual inclui a feminilidade. É tarefa de uma mulher torná-Lo consciente disso. Seja a serpente do Paraíso e faça com que Deus coma a fruta da árvore do conhecimento do bem e do mal. A verdade é que os seres humanos comeram dela, e Deus não comeu. Faça com que Deus coma a fruta que você Lhe oferecerá. Isto é a mesma coisa que fazê-Lo tocar a sua harpa.
Paciente: Mas é exatamente o que ele se recusou a fazer.
Grande Mãe: Sim. Mas naquela época você ainda não estava suficientemente consciente da sua sombra. Você só pode conseguir que Deus o faça se você e sua sombra estiverem completamente fundidas.
Paciente: Oh, minha Grande Mãe, eu não estou pronta para esta tarefa! Sua feminilidade e a sabedoria do Self são necessárias para o cumprimento de tal missão. Somente a própria Sofia poderia, talvez, ser suficientemente poderosa.
Grande Mãe: Sim, é verdade. Mas em seu sonho, a voz de Deus pede sua ajuda. Ouça: nós, os grandes arquétipos femininos do inconsciente coletivo podemos contrabalançar uma linha masculina demais e portanto perigosa de Deus. Mas para salvar a humanidade, os seres humanos precisam nos garantir um ponto de apoio. Não podemos fazê-lo somente no mundo espiritual. E neste caso específico precisamos das mulheres, mulheres terrenas. Precisamos deste aspecto terreno da feminilidade. Uma quantidade suficiente dele pode pesar na balança e trazê-la ao equilíbrio. Faça sua parte! Este é o significado de toda a sua vida.
Vigésima nona conversa com a Grande Mãe
Paciente: Minha Grande Mãe, eu tive uma experiência que não foi uma visão, mas um tipo de pensamento luminoso, muito esquisito e meio perigoso. Talvez eu tenha falado com você numa fantasia passiva. Alguém me disse coisas ou me inspirou pensamentos. Eu não os criei.
Grande Mãe: Conte-me.
Paciente: Quando Cristo tinha que nascer, Deus engravidou Maria através do Espírito Santo. Então, o Filho de Deus desceu do céu para a terra. Agora, foi-me dito que o inverso está prestes a acontecer e que Satã parece estar pronto a ser admitido na quaternidade. Até agora, Satã estava encarnado na humanidade enquanto pecado, mas agora ele precisa ou subir da terra para o céu, ou renascer no céu. Somente se isto acontecer a humanidade ficará livre de Satã; quer dizer, do pecado. Minha fantasia diz que uma mulher da terra precisa instigar o processo, precisa dar o pontapé inicial. Nós mulheres precisamos fazer Deus desejar aceitar a maçã do Jardim do Éden, que é a maçã da consicência do bem e do mal.[11] Ou – neste caso – deveria ser chamada a maçã da terra, a maçã da humanidade pecadora. O oferecimento desta maçã tem o propósito de evocar um pensamento na mente de Deus, a consciência de Satã enquanto Seu filho, ou talvez a consciência de Sofia enquanto Sua esposa, da qual Satã pode renascer como seu filho no céu. Não está claro para mim exatamente como ou de que maneira isto poderia ocorrer.
Grande Mãe: Se você fosse humilde como Maria, poderia tentar cumprir sua parte nisso. Então, no nível simbólico mais elevado possível, você parirá aquela criança espiritual que uma vez lhe foi anunciada naquilo que você chamava de sua “Grande Visão”. Num estágio anterior ao atual, isto, como você se lembra, foi explicado como “cumprimento ativo do destino”.
Paciente: Tenho medo de ser impossível para mim ser tão humilde quanto Maria foi.
Grande Mãe: Se você inflar, vai morrer ou sofrer profundamente.
Paciente: Eu desejo morrer por isto, ou sofrer profundamente, se somente me for permitido dar à luz a esta criança simbólica. Eu não terei paz a menos que isto se realize.
Grande Mãe: Você não pode impor condições.
Paciente: Eu sei. Vou aceitar meu destino e tentar realizá-lo. Se a raiva de Deus me atingir antes que eu o cumpra, estarei pronta para aceitá-lo.
Grande Mãe: É assim que deve ser.
Paciente: Grande Mãe, fique comigo! Eu imploro que você me avise imediatamente se eu tender a ficar inflada. Avise-me, por favor! Ajude-me a ser humilde.
Grande Mãe: Você sabe que Deus a chamou para ajudar. Deixe que a consciência deste fato lhe dê a humildade, pois é Deus que está fazendo isso com você. Em você mesma não há poder para realizar tal tarefa. O próprio Deus vai lhe dar inspiração para fazer a coisa certa, mesmo que isto pareça irracional. Você é somente um pedacinho de chão humano que é necessário. Satã está na humanidade; está aprisionado aqui. Da mesma maneira, seu animus estava aprisionado em você. Seu animus gritou em você enquanto neurose. Você abriu a prisão. Ele então contou a Deus que você poderia abrir também outra prisão.
Paciente: Satã está nesta prisão? Ou Deus? Deus gritou por ajuda, ou foi Satã?
Grande Mãe: Não há diferença. Satã é uma parte de Deus. Você redimirá a ambos e à humanidade, se realizar a missão.
Paciente: Minha Grande Mãe, você não está causando em mim uma inflação? Eu não quero me identificar com assuntos divinos.
Grande Mãe: É mais humilde obedecer do que retirar-se com medo. Você disse que preferia ser sacrificada do que ter este sentimento de eterna insatisfação.
Paciente: Então me submeto.
Grande Mãe: Se você for incapaz de cumprir esta missão, haverá outras mulheres prontas para assumi-la. Talvez sua tarefa seja simplesmente começar. Não tem nenhuma importância se for você ou qualquer outra pessoa a cumpri-la. Alguém tem que começar, e um começo demanda um esforço extremo.
Paciente: O que tenho que fazer?
Grande Mãe: Quando você estava pendurada de cabeça para baixo na corda bamba da sua fantasia, e não caiu naquela prova, foi fertilizada com toda esta situação de ponta-cabeça. Lembre-se do que você disse anteriormente: “Uma vez Deus desceu do céu para a terra; agora a terra deve parir aquilo que está faltando no céu.” Você é uma das que têm que ajudar para isto acontecer. Você precisa sacrificar seu fascínio pelo animus. Se um número suficiente de mulheres fizerem isso, então Satã pode subir ao céu. Mas o pensamento de que você precisa realizar isto sozinha é o resultado de uma inflação. Tais pensamentos são idéias do animus. Você é uma mulher entre muitas que são chamadas a libertar Deus, ou Satã, de seus animus. Justamente agora eu a deixei numa inflação por um momento, porque queria testá-la (ou Deus a testou), para ver se você podia ser humilde. Você pode: acabou de prová-lo.
Paciente: Sinto-me completamente confusa: o que aconteceu exatamente?
Grande Mãe: Veja, assim que você tenta abrir a prisão do seu animus – o que ajudaria a ascensão de Satã – ele imediatamente tenta possuí-la causando-lhe uma inflação. Conseqüentemente, emergiu esta idéia inchada, a idéia de que somente você havia sido chamada para ajudar Deus. Isso, evidentemente, não é assim. A feminilidade foi chamada, e você deve fazer sua parte com grande humildade. Deve libertar seu animus, não de uma vez, mas devagarzinho, passo a passo. E não em êxtase, voando com ele pelos céus, mas aprendendo a humildade durante o resto da sua vida na terra. Mantenha em mente aquelas mulheres na praça central da sua cidade, no sonho. Elas celebravam a libertação do animus, e você teve o privilégio de ser uma espectadora deste festival de libertação. Hoje você também começou a agir, e agora está nele – é uma dessas mulheres. Você deve fazer no seu âmbito humilde o que nós, arquétipos do inconsciente coletivo, vamos fazer em nosso âmbito espiritual. O Deus masculino demais em você é seu animus. Cure-o da sua inflação quando ele pensa ser Deus ou Satã. Desemaranhando seu animus de Satã, você ajuda este último a subir para a quarternidade. Assim você faz seu papel no drama celestial, e sente que está participando dele.
Agora, preciso avisá-la de um perigo que está por vir: você vai correr o risco de ter, você mesma, terríveis inflações. Esteja consciente deste perigo o tempo todo. Somente através de você a inflação do seu animus pode deixá-lo. Você pode lidar com isso sofrendo a consciência. Além disso, a inflação não será o único perigo para você. A deflação é tão ruim quanto ela. Não se sinta inferior quando perceber que esteve inflada; sinta-se humildemente humana.
Nunca se esqueça de que foi Deus quem a chamou para ajudar, embora você não seja a única criatura chamada. Seja paciente. Deixe as coisas crescerem no seu ritmo. Esteja sempre com sua sombra. Pois não é garantido que você agora habite para sempre naquilo que chama “o mundo por trás da neurose”. Talvez você sofra regressões. Atravesse-as se for necessário. Seja corajosa e tome cuidado!
Com tais palavras, a Grande Mãe deixou sua discípula por um período mais longo. Obviamente, a professora acreditava que a paciente poderia agora estar suficientemente madura para sustentar-se em seus próprios pés. E, genericamente falando, provavelmente estava, embora algumas dificuldades tenham permanecido para serem solucionadas.
De modo geral, a paciente não mais se considerava neurótica. É verdade que evitava certas situações difíceis, e ainda tinha um pouco de medo de possíveis regressões, das quais preferia fugir do que arriscar. Vivendo quietamente, podia administrar bastante trabalho. E tinha a satisfação de sentir que as pessoas gostavam mais dela e que algumas efetivamente a procuravam.
Quanto ao processo de individuação, cujo desenvolvimento venho mostrando ao longo dessas palestras, a paciente cumpriu plenamente o que devia à linha de pensamento junguiano em geral, e ao método de imaginação ativa em particular. Além disso, experimentava um sentimento caloroso de gratidão em relação às suas analistas, e seu amor e paciência infalíveis que a ajudaram a atravessar, e a superar, longos períodos de desespero.
Acima de tudo, tinha uma gratidão profunda e real à sublime figura da Grande Mãe, sua eminente mestra, que a alimentou do fluxo arquetípico. Em honra a esta grande personalidade, a palavra final lhe será dada, na forma de uma última conversa. Não foi a última na seqüência, mas foi posta de lado quando ocorreu, para fechar esta série de conversas.
Aconteceu quando a Grande Mãe e sua discípula estavam em sua permanência no mundo espiritual, o qual a paciente havia alcançado no fim da travessia com corda bamba sobre o abismo. Depois desta travessia, A Grande Mãe e sua discípula habitavam juntas o elevado âmbito espiritual. Lá, esta sublime mestra dirigiu a atenção da sua aluna para um som que a última não havia percebido previamente, um som realmente muito curioso, que ela nunca poderia ter ouvido se não tivesse sido treinada pelas revelações da Grande Mãe. Esta explicou o som de modo a dar a noção de proporção à sua aluna.
Trigésima conversa com a Grande Mãe
Grande Mãe: Este som que você é capaz de discernir agora, porque está vivendo naquilo que chama de “seu mundo por trás da neurose” – este curioso som é a respiração. Você ouve a respiração da vida agora, a respiração de Deus: para fora e para dentro, para fora e para dentro; nascimento e morte, nascimento e morte…
Uma respiração divina é toda a vida de um ser humano.
Epílogo – Barbara Hannah
Últimas conversas com o Grande Espírito
Depois que Anna terminou suas conversas com a Grande Mãe, dedicou-se por dois ou três anos a interpretar os desenhos que fizera muitos anos antes, no começo da sua análise com Toni Wolff[12]. Como mencionado anteriormente, Jung era geralmente contra interpretações sobre a imaginação ativa no momento em que ocorre, para evitar influências no seu desenvolvimento. Além disso, Anna não estava de forma alguma preparada para entender seus desenhos naquele momento. Era também muito melhor e mais convincente que a interpretação desses desenhos viesse — como, no fim, ocorreu — do seu próprio inconsciente. Jung costumava dizer que apesar do interesse que as pessoas têm nas interpretações feita pelos seus analistas, nunca as incorporam na vida real até que o seu próprio inconsciente dê a sua versão. O analista seria tolo, entretanto, em incomodar-se com isso, porque a única coisa importante é que o analisando seja realmente tocado pelo significado.
Durante vários anos depois de terminar seu trabalho, Anna dedicou-se a preparar o texto Anna Marjula para sua edição particular. Devo enfatizar que ela mesma fez todo o trabalho necessário, que era considerável, porque as conversas como originalmente aconteceram eram longas demais, impossíveis de imprimir sem serem resumidas. Meu envolvimento foi ler, de tempos em tempos, o seu manuscrito, e fazer algumas sugestões.
Durante este período, Anna se sentiu muito melhor do que antes das conversas com a Grande Mãe. Na verdade, já se sentia curada, o que por muito tempo foi seu objetivo. Continuou com sua análise, mas não mais porque sentisse que era necessária à sua saúde nem porque desejasse cura para seu anterior senso de inferioridade, mas somente para ampliar sua consciência. Estava totalmente convencida de que a ampliação da consciência era a necessidade mais urgente do homem moderno[13]. No entanto, sua experiência na infância e adolescência, com seu pai excessivamente inconsciente, a tinha ferido de maneira muito mais profunda e fatal do que ela pensava, e ainda havia uma região em toda a sua relação com os homens e com o animus que poderia trazer novamente problemas e arruinar tudo o que conquistara. Em Anna Marjula, vemos que seu pai, mesmo em seu leito de morte, permaneceu totalmente inconsciente, e portanto não se arrependeu do que fez e ainda queria fazer a sua filha desafortunada.
Para filhas de pais como esse, a sexualidade é igual ao incesto, e assim o tradicional e forte tabu contra o incesto opera nelas de modo irresistível sempre que é tocado o reino da sexualidade ou qualquer relação íntima com os homens. Por essa razão, essa área irá resistir e permanecer inalterada, mesmo com uma transformação tão grande como aquela por que passou Anna, e que ela descreve no material exposto em Anna Marjula.
Assim, tudo isso foi suficiente para manter Anna calma e feliz por alguns anos, de modo que ela dedicou-se à interpretação dos seus primeiros desenhos e à preparação de Anna Marjula. Mas quando todo esse trabalho terminou, a área tabu começou a trazer-lhe problemas, e ela dolorosamente percebeu que era necessário trabalhar mais com a imaginação ativa para que pudesse confiar que a sua transformação a libertaria para o tipo de existência “fazedora de chuva” (mágica) que dá sentido até à velhice mais avançada.
Ela compreendera isso de maneira total e já discutia onde começar, quando teve um sonho que veio em sua ajuda. Relatou-o assim:
Estou num restaurante “self-service” (ou Self service!). A porta se abre e entra o Professor Jung. Ele se senta à minha mesa e fala comigo. Então a situação muda: eu mesma estou sentada, mas o Professor Jung agora está de pé à minha direita, falando com um homem. Eu não consigo acompanhar a discussão, pois falam um com o outro como iguais e o assunto está além da minha capacidade intelectual. Mas durante todo o tempo em que falam, Jung me protege, ocultando-me atrás das suas costas amplas, e fica segurando minha mão. Através desse toque sinto um fluxo de vida nova entrando em mim.
O homem estranho é evidentemente uma figura de animus que ela ainda não encontrou, e, de fato, seu trabalho com o animus em Anna Marjula foi principalmente com o lado negativo. O fato de esta figura poder falar de igual para igual com o Dr. Jung, sobre “assuntos acima da capacidade intelectual” dela, mostra que ele veio de um nível positivo do seu animus, do qual ela estava completamente inconsciente. Parece-me, entretanto, que essa figura era o equivalente da Grande Mãe dela do lado masculino e que, se aceitasse falar com ela, poderia levá-la tão longe no logos quanto a Grande Mãe a tinha levado no eros. A transferência a Jung, além disso, foi sempre perturbada pelas coisas que o seu pai lhe tinha feito, e freqüentemente estava muito nas mãos do seu animus negativo. Essa figura onírica, assim, também parecia oferecer uma oportunidade de grande melhora neste campo, uma esperança que subseqüentemente realizou-se de maneira completa.
No entanto, era óbvio no sonho que a empreitada poderia ser um tanto perigosa — senão, por que o Dr. Jung a esconderia, protegendo-a, segurando a sua mão, no sonho? Mas o fato de que uma nova energia surgia nela, através desse contato, obviamente fazia a aventura valer a pena. Com muita sabedoria, Anna manteve aberto o contato com a Grande Mãe, e, desde o princípio, assegurou-se de que ela aprovava completamente a empreitada. Tanto é que a Grande Mãe interveio mais do que uma vez quando as coisas estavam difíceis, salvando assim a situação.
Essas conversas com o “Grande Espírito”, como as denominou Anna, foram tão longas e de difícil manipulação quanto a versão original das suas conversas com a Grande Mãe, e obviamente necessitaram de uma boa condensação antes de serem incluídas neste livro. Ela as organizou em forma de conferências, como em Anna Marjula. Mas neste momento ela se aproximava dos noventa anos de idade e, além disso, o Grande Espírito a inspirava a escrever poemas em sua própria língua. Assim, ela me pediu para fazer a condensação, e deu-me permissão total para fazer o que eu achasse melhor com o material.
Eu não me senti capaz de manter tudo na primeira pessoa, ou na forma de conferências imaginárias; além disso, o leitor já tinha entrado em contato com essa forma nas conversas de Anna com a Grande Mãe. Dessa maneira, decidi selecionar aqueles que me pareceram ser os pontos mais importantes e condensar o restante, como fiz também nos outros casos.
Primeira Série de Conversas
Anna teve grande dificuldade para começar essas conversas, pois a sua única experiência do animus, até então, tinha sido com uma figura pessoal e negativa que havia sido gravada nela pela experiência infeliz com o seu pai. No entanto, o pai, apesar de tão cegamente inconsciente em relação às suas filhas, era também um homem muito inteligente e importante. Desse modo, seu animus pessoal tinha um lado mais positivo que ela nunca tinha visto, e atrás disto estava a imagem arquetípica do Grande Espírito. Mas todos esses aspectos estavam irremediavelmente confundidos e contaminados entre si quando ela começou as conversas, e assim naturalmente a primeira parte foi totalmente dedicada a desembaraçá-los e remover a projeção que Anna fazia do seu animus de poder negativo sobre os outros aspectos.
Anna tenta falar imediatamente com a imagem arquetípica, embora admita vê-lo de maneira muito vaga e diga que o seu animus negativo se interpõe entre eles. O Grande Espírito responde que, como a figura é muito menor que ele, isso só pode ser verdade se Anna se mantiver tão próxima da figura negativa que esta possa obliterar a figura muito maior. Ele também se queixa de que ela tem medo demais dessa figura menor, ao passo que o tom que ela usa ao falar com o Grande Espírito é muito mais atrevido.
No dia seguinte, ela diz a ele o quanto a conversa a ajudou; sente que transformou parte do seu medo que sentia por ele em reverência. Mas o Grande Espírito diz que isso deveria ser dito de outra maneira: ela transformou a agressão com que o tratava numa atitude mais humilde, neutralizando assim parte do seu medo do “irmão menor” dele, como ela chama seu animus pessoal.
Anna lera grande parte da obra de Mestre Eckhart, e estava bem segura de que devemos desistir do nosso caminho em função do caminho de Deus, ou, em linguagem psicológica, que o ego deve abdicar em função do Self. Assim, ela pergunta ao Grande Espírito se ele pode ajudá-la a obedecer de boa vontade aos desejos de Deus. Ele responde que o “de boa vontade” fica inteiramente por conta dela, mas, em geral, ele pode fazer com que ela saiba o que Deus quer dela. Mas, acrescenta, isso é exatamente aquilo que ela não quer saber; o que ela mais teme é que lhe seja pedido carregar a sua própria cruz, por assim dizer. Assim, ela prefere ser possuída pelo seu irmão menor. Ela vê isso como algo inofensivo, se comparado ao que Deus pode pedir dela. Anna então se queixa de que embora o Grande Espírito a esteja curando do seu medo do irmão menor, ela está com muito mais medo dele mesmo do que jamais teve do seu animus negativo!
Na sua conversa seguinte, ela se acusa de inflação. A menção da cruz fez com que ela se identificasse com Jesus e, mais uma vez, ela se viu como muito maior do que realmente era. (O leitor se recordará de que muitas das suas conversas com a Grande Mãe foram perturbadas pelo desejo ardente que Anna tinha de se tornar “uma grande mulher”). O Grande Espírito lembra-a de que não ele, mas ela mesma é que quis saber o que Deus queria dela.
Devo ressaltar que, devido à contaminação entre seu próprio animus positivo e o Grande Espírito, ela atribui todas as respostas que obtém a este último. Isso, em si, já basta para causar inflação, e mostra-nos por que é tão necessário na imaginação ativa distinguir entre os elementos individuais e os coletivos. Do mesmo modo como uma mulher, ao começar a perceber o seu animus negativo, freqüentemente o vê como o próprio Satã, no lado positivo ela pode confundir sua própria mente inconsciente individual com o Grande Espírito.
Anna nota em sua próxima conversa que ela está falando praticamente todo o tempo, o que é tolo, se ela quiser aprender com ele. Como indiquei em meus comentários sobre Hugh de St. Victor, isso é um erro que ela compartilha com muitos — a maioria — dos registros medievais que temos de conversas desse tipo: o assim chamado diálogo é realmente um monólogo com o próprio autor.[14] Mas Anna tinha menos desculpas para esses lapsos, pois na técnica da conversa na imaginação ativa vem primeiro falar ou questionar-se a si mesmo, e depois esvaziar o máximo possível a mente para poder ouvir a resposta. Como disse o Ba 4000 anos atrás: “Olhe! É deus, quando os homens escutam!” — conselho que muito poucos de nós aprendemos a seguir até hoje. O mundo provavelmente estaria num estado muito diferente se mais gente tivesse aprendido essa lição.
O Grande Espírito, ou antes, a mente criativa inconsciente de Anna, diz a ela então que ainda que ele não tenha objeções às perguntas feitas sobre a vida pessoal dela, ela deve compreender que ele necessita dela para um propósito criativo — ele simplesmente a forçará a obedecer, como ela fez a sua vida inteira. Ela diz então que é demais para ela “carregá-lo sobre os meus ombros”, ao que ele responde: que ela não diga essa tolice! Ela não pode carregá-lo, e de fato não o carrega; ela só pode engravidar da inspiração dele, que é afinal o caminho de uma mulher. Se ele escolhe uma mulher para trazer a sua inspiração para a realidade, ela não deve repentinamente transformar-se num homem de segunda categoria! Ela deve tentar esvaziar-se, particularmente das idéias do seu irmão menor animus. Assim ele, o Grande Espírito, pode então criar através dela. Essa é exatamente a técnica que temos que usar para ouvir o inconsciente: esvaziar-nos e ouvir.
Mas Anna ainda não está disposta a ouvir, e, como o homem entediado, começa a brincar com a idéia de suicídio. Ela o chama usando a sua ambição com o propósito de auto-sacrifício. Diz: “Em um só sopro, então, o suicídio pode aliviar meus sentimentos inconscientes de culpa (através da auto-punição), e satisfazer minha megalomania ou ambição de grandeza, especialmente se o suicídio tomar a forma de um auto-sacrifício extático!”.
O Grande Espírito, como o Ba, imediatamente se opõe a essa idéia. Diz que há muito já se foi o tempo em que ela podia seguir o exemplo da sua irmã[15], porque agora ela está equipada com “um pouquinho mais de consciência da sua sombra….. E — mais importante ainda — um pouco mais de consciência de Deus como um ser vivo”.
Admitindo que com freqüência ela ainda confunde os desejos de Deus e as opiniões do animus, ela cede: enquanto não estiver louca e puder usar o bom senso, nunca cometerá suicídio. Mas ela tem muito medo de um “êxtase religioso” que possa levá-la de roldão. Se ao menos ela conseguisse transformar o seu medo bíblico de Deus… o Grande Espírito responde dizendo-lhe que ela deve primeiramente aceitar as suas limitações e enfrentar o fato de que ela simplesmente não é uma grande mulher.
Vemos aqui quase exatamente o que Jung nos conta no fim do seu capítulo “Sobre a vida e a morte”, em Memórias, Sonhos, Reflexões. Ele diz:
A questão decisiva para o homem é: ele se relaciona com algo infinito ou não? Essa é a questão principal da sua vida. Só quando sabemos que a única coisa que conta é o infinito podemos evitar fixar nosso interesse em futilidades, e em todo tipo de metas que não têm real importância…
O sentimento de infinito, no entanto, só pode ser atingido se estamos ligados ao supremo. A maior limitação para o homem é o “eu”; ele se manifesta na experiência: “Sou apenas isto!” Só a consciência do nosso estreito confinamento no eu forma a conexão com a infinitude do inconsciente. Nessa consciência experienciamo-nos ao mesmo tempo como limitados e eternos, tanto um quanto o outro. Quando compreendemos que somos únicos em nossa combinação pessoal — ou seja, em última análise, limitados — possuímos também a capacidade de nos tornarmos conscientes do infinito. Mas só nesse caso![16]
Mas Anna ainda não está pronta para sacrificar a sua meta favorita de tornar-se uma grande mulher. Ela diz a ele que agora vê como seu objetivo aceitar o “Grande Não” das mãos de deus: não a um marido, a ter filhos, a ter amantes, a um grande compositor ou poeta. Essa é a dignidade feminina de hoje. Mas o Grande Espírito é o seu grande sedutor; assim, ela deve agora despedir-se dele. Ele trouxe a ela prazer, de tempos em tempos, quando a inspirou, e pode ainda fazê-lo se aceitar seu papel secundário na vida dela, que agora está completamente preenchida pelo Grande Não.
Ele mostra a Anna que ser dispensado e reduzido a “um possível embelezamento da vida dela” não lhe é de forma alguma apropriado, mas ela não o escuta. Nada vê, a não ser o Grande Não. Agora Deus a seduziu, e o Grande Espírito está muito abaixo deles. Ela até sustenta que o seu “Grande Não” não é menos que a união de opostos como a viveu Lutero.[17] Assim ele se tornou um grande homem, do mesmo modo que ela espera tornar-se grande, ainda que admita que sua grandeza será mais invisível porque ela é uma mulher. Se o Grande Espírito pudesse perceber o seu papel secundário e apenas embelezar a vida dela, ele poderia até agradar a Deus!
Neste ponto, quando parecia que ela ia ficar se jactando desses pensamentos para sempre, foi retomada por um sonho:
Estou numa cidade desconhecida. Subo uma rua bem íngreme. No topo há um grande edifício (Associação: o Palácio de Justiça de Bruxelas). Quatro ruas levam a ele. Chego ao topo da montanha e olho para baixo, para o despenhadeiro. A vista é magnífica, e me deixa em êxtase. Então estou novamente na cidade de baixo, numa cozinha muito suja (a cozinha da sombra? — uma cozinha de bruxa?).
Como regra geral, é melhor não interferir na imaginação ativa; mas devemos assinalar, é claro, quando ela está sendo mal usada, e era óbvio para mim que há algum tempo Anna caíra vitima do seu animus negativo. Mas ela não estava inclinada a me ouvir e tampouco a ouvir o Grande Espírito, porque estava totalmente possuída pela opinião do seu Grande Não. Este sonho me deu uma oportunidade, no entanto, e eu pedi a ela, “em nome da justiça”, que revisse sua última conversa e observasse se estava sendo justa com o Grande Espírito, e que se perguntasse também o que fazia numa cozinha de bruxa.
É claro que ela não gostou, mas “em nome da justiça” dispôs-se a fazê-lo. Da próxima vez que veio, tinha dado cabo totalmente da opinião de seu animus sobre o Grande Não, e tinha percebido exatamente onde ele a tinha dominado. Mas ainda foi preciso usar de um pouco de persuasão para induzi-la a retomar suas conversas, pois dessa vez ela tinha muito medo de enfrentar o Grande Espírito depois de todas as suas impertinências para com ele.
Mas ela de fato o enfrentou, finalmente, e perguntou se ele ainda podia conversar com ela depois do erro terrível que ela cometera, confundindo-o com o seu animus negativo. Ela tinha se esquecido completamente do sonho em que ele falava de igual para igual com Jung, e admitiu que o mais provável era que de modo algum ele a tivesse seduzido.
Ele respondeu que o mais importante para ela era descobrir a identidade daquele que a havia seduzido. Ela disse que receava ter sido a ambição. Ele replicou que não havia sido a ambição mas a megalomania, o que é muito pior, pois nesta a ambição aparece realizada. Quando ele lhe disse para aceitar o fato de que não era uma grande mulher, pisou na sua megalomania. Imediatamente, ela retrucou que era sim grande mulher, porque tinha aceito o Grande Não de Deus e sustentou até ser igual a Lutero em sua união de opostos. Então, por “amor à justiça”, concordou que tinha aceito seu destino mas estragado esse gesto genuinamente humilde ao ficar orgulhosa dele. Rendeu-se assim à sua megalomania e sentiu-se novamente uma grande mulher. Ela foi bem clara a esse respeito.
Além disso, o Grande Espírito aconselha Anna a ficar muito mais consciente do seu animus negativo pessoal. Ela comete o erro de pensar que ficando mais consciente do lado positivo automaticamente neutralizará o negativo, diz ele. Mas só com uma consciência maior do negativo ela pode aproximar-se do Grande Espírito de modo mais positivo. Só trabalhando duramente nas regiões inferiores ela poderá começar a compreender as coisas espirituais que ele falava a Jung em seu sonho.
Na conversa seguinte, Anna fala do seu tabu sexual que, acredita ela, a impede de ter relacionamentos com homens e com o Grande Espírito. Ele ressalta que é o animus de poder dela e o seu desejo de poder que faz isso, dizendo:
No ato sexual, uma mulher deve abrir mão do seu poder e permitir-se ser subjugada pelo macho. Bem lá no fundo, é isso o que ela quer: ser subjugada pelo masculino. O momento em que ela tem que conceder é o seu momento de satisfação. Assim é a natureza.
Ela pergunta onde está o seu erro. Ele responde que ela julga os homens conforme o seu animus negativo, que só a domina para conseguir maior poder sobre ela, e assim ela não confia nos homens, na ternura que eles têm, no amor deles. Ela projeta o seu próprio animus negativo nos homens e assim destrói toda chance de o homem amá-la.
Anna, com bem mais do que setenta anos de idade quando acontece esta conversa, diz: “Tento conscientizar-me de que o tempo da sexualidade já se foi”. O Grande Espírito responde que o tempo para a sexualidade concreta já acabou, sim, mas não o tempo da sua realização simbólica. Com a sexualidade como pano-de-fundo, ela deve aprender a olhar a espiritualidade de frente. Anna percebe, então, que foi o seu desejo ardente de poder, de ser uma grande mulher, que estragou a sua sexualidade feminina.
O Grande Espírito explica que apesar de ela às vezes perceber quando estava possuída pelo animus negativo, que ela sempre viu como algo externo a ela, deve agora perceber que ele está dentro dela. Foi o seu desejo ardente de poder que a manteve afastada da reação feminina normal de querer ser subjugada. Ela bloqueou o caminho para a sua natureza feminina com seu anseio pelo poder. Nenhum diabo externo fez isso a ela; ela fez isso a si mesma.
Na próxima conversa, ela conta a ele quanto o que ele disse a ajudou. Mas sente-se, agora, angustiada com um fato novo. Uma mulher em seu hotel, que ela chama de Sra. C., a deixa extremamente irritada. Anna está determinada a encerrar todo o contato com ela, mas percebe agora que tem sido “cruel e egoísta” com ela, e se pergunta quanto mal lhe fez. Ela também percebe que foi desonesta ao aceitar troco excessivo no correio, naquela manhã. O que ele acha do seu comportamento?
Ele responde que não podemos aceitar as nossas partes pertencentes à sombra negativa sem algumas conseqüências. Pelo menos ela agora sabe que não é mais honesta do que as outras pessoas. Mas ele não tem a intenção de falar sobre o que ela fez à Sra. C. porque ela não o fez pelo bem da outra mulher, mas inteiramente para si própria. Ela agora saboreia a sua liberdade, mas a alegria está misturada com um certo incômodo porque ela é forçada a ver que pode ser “dura, cruel e impiedosa”.
Anna pergunta a ele onde o animus negativo entrou, nessa situação, mas o Grande Espírito responde que esse atos foram realizados pela sombra dela, e não tinham nada a ver com o seu animus. Ela deve aprender a distinguir um do outro: o animus é o que oferece a ela opiniões irrefutáveis sobre o que fazer ou não fazer, enquanto a sombra se enfia furtivamente nos atuais atos concretos, negativos.
Aqui, o Grande Espírito chama a atenção de Anna para algo muito importante: é insensato culpar o animus numa situação que nada tem a ver com ele. Aprendi isso pelo caminho mais difícil, uma vez, quando, em minha análise, Jung se ausentou durante o feriado natalino. Fiquei muito fora de mim e culpei inteiramente o animus pelo meu sofrimento, o que só tornou as coisas ainda mais difíceis. Na minha primeira sessão de análise, disse a Jung que eu estivera mal com o animus durante o feriado. Ele me perscrutou e disse: “Não acho que foi esse o problema. O que realmente aconteceu com você no começo do feriado?” Lembrei-me então que alguém tinha me machucado muito, mas eu tinha sido compreensiva e “razoável”, sem perceber o quanto aquilo tinha me tocado de verdade. Foi a emoção não-reconhecida que me deixou fora de mim, e, ao culpar o animus, dessa vez totalmente inocente, eu naturalmente o enfureci e lhe trouxe uma dificuldade adicional, ainda que secundária.
Como freqüentemente acontece na imaginação criativa, o grande erro de Anna revelou-se uma bênção disfarçada. Deu ao Grande Espírito a oportunidade de ensinar a Anna a diferença entre ele e o seu animus negativo, e a distinguir entre este e a sua sombra. A primeira parte da sua conversa termina com o desenvolvimento da sua capacidade de separar essas três figuras, e ela não comete mais esses erros — ou aconteça o que acontecer, ela percebe imediatamente, quando o faz — nas conversas subseqüentes. Mas ela ainda não tem discriminação entre o seu animus individual positivo, ou mente inconsciente, e a imagem do Grande Espírito arquetípico. Ela aprenderá a fazer essa diferenciação pelo caminho mais difícil, no curso da próxima série de conversas.
Pode-se presumir que a inspiração de que ela fala veio do seu próprio animus individual positivo, apesar de essas inspirações também parecerem vir em parte do nível arquetípico. O fato atesta que o espírito do tempo parece se expressar através das pinturas, poemas ou músicas do artista individual. Isso fica muito claro nas obras de um artista como Peter Birkhäuser, por exemplo.
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[1] Anna Marjula, The Healing Influence of Active Imagination in a Specific Case of Neurosis, Zurich: Schippert & Co, 1967.
[2] Jung, “Função Transcendente”, Obras Completas, vol 8, pár. 166ff. Também Barbara Hannah, “The Problem of Contact with the Animus”, Guild of Pastoral Psychology, Lecture 70, pp 20-22.
[3] O aspecto importante no qual esta coragem aparecia era sua disposição para encarar a sombra. Isto era óbvio desde o começo, embora, por muitos anos, o animus ainda conseguisse roubar tais realizações dela, para manter a sombra consigo. Mas lentamente, principalmente depois da fantasia da corda bamba, Anna percebeu o valor de integrar sua sombra, uma realização que é uma conditio sine qua non do desenvolvimento futuro.
[4] Anna francamente admitia suas dificuldades com os homens, e o leitor pode constatar em alguns lugares que ela ainda teria mais trabalho pela frente no que diz respeito ao seu relacionamento e ao seu conhecimento dos homens.
[5] O mesmo princípio que Francis Thompson em Hound of Heaven, Boston: Branden Press, n.d..
[6] Nesta época, Anna estava de novo trabalhando comigo – Barbara Hannah
[7] Falaremos sobre isso mais tarde, na pág 183.
[8] Não somente parecia, ela estava. B.H.
[9] Cf. tradução autorizada de Jung, Obras completas, vol 12, par 152 – BH
[10] O registro que se segue dos pronunciamentos do Jung não devem ser tomados literalmente, mas mais como um eco que tiveram na alma da paciente.
[11] Num desenho feito no começo da análise, muitos anos antes, Anna havia desenhado a si mesma e a uma serpente, ambas oferecendo maçãs para a Trindade.
[12] Cinco desses desenhos, com outros quatro suplementares, junto com a interpretação que Anna fez deles, são apresentados na parte II do livreto Anna Marjula, que teve edição independente.
[13] Hannah, Jung: His Life and Work, pp. 171ss.
[14] Ver acima, p.
[15] Anna Marjula, p. 256
[16] Jung, Memórias, Sonhos, Reflexões, p. 325.
[17] Lutero, quando era um jovem monge, era muito neurótico; talvez até louco. Ele fez o que pôde para superar a sua doença. Confessava-se cinco vezes por dia, flagelava-se, jejuava. Nada o ajudava. Em desespero total, disse a si mesmo então: “Está bem, Deus me amaldiçoou; meu lugar é o inferno. Agora tentarei submeter-me a Deus, aceitar sua maldição, estar separado Dele.” (Geralmente um homem luta contra o seu destino, ao passo que uma mulher o aceita. Mas neste desespero extremo, Lutero escolhe o caminho feminino, e essa atitude lhe trouxe a cura).
Categoria: EXTENSÃO
Unidade: Monte Alegre / SP
Promoção: PUC-SP – Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde
http://cogeae.pucsp.br/cogeae/curso/643
Situação: Matrículas Abertas
Informações: (11) 3124 9600
Início em: 26 de agosto de 2010
Duração: 48 horas
Horário: quintas-feiras, das 12 às 15 horas
.: APRESENTAÇÃO :.
O curso pretende fornecer bases teóricas para a compreensão do fenômeno do envelhecimento a partir do conceito junguiano de metanóia (segunda metade da vida) e instrumentar o aluno a entender indivíduos em processo de envelhecimento em sua prática clínica, social e hospitalar.
Jung afirma reiteradamente em sua obra que na segunda metade da vida (conceito que não tem conotação rigidamente cronológica, mas depende do processo de desenvolvimento individual) o ser humano é obrigado a se confrontar com o fato de que o avançar da idade não pode ser tomado como mero apêndice da juventude, e que o declínio físico não significa afastamento de sua alma, mas exatamente o contrário: a possibilidade de realização do Si mesmo, ou seja, ser quem se é, incluindo na personalidade total conteúdos até então inconscientes devido à unilateralidade do ego jovem. A esta tarefa Jung dá o nome de processo de individuação.
O desenvolvimento de competências artísticas de quaisquer naturezas e o redescobrimento do corpo são fundamentais neste processo, particularmente devido a sua capacidade não verbal de linguagem. Estudos mostram que os seres humanos vão viver cada vez mais e não apenas o número de idosos tende a crescer, como também o número dos muitos idosos, denominados de integrantes da quarta idade (pessoas com mais de 85 anos). No entanto, já a partir da segunda metade da vida o processo de envelhecimento está instalado, o que exige o olhar diferenciado tanto de cuidadores quanto dos próprios indivíduos.
A longevidade humana é um fenômeno do nosso tempo e da nossa sociedade, portanto diz respeito a cada um de nós, o que torna necessária a participação das várias partes interessadas em construir uma sociedade mais acolhedora para todas as idades, como organizações não governamentais, voluntariado, famílias, idosos, universidades, empresas, trabalhadores, sindicatos, instituições de pesquisas.
Objetivos do curso:
Proporcionar aos profissionais de diversas áreas do saber conhecimentos atualizados em Gerontologia e possibilidade de qualificação profissional; desenvolver a capacidade de análise do indivíduo em processo de envelhecimento; esclarecer a relação entre as instâncias psíquicas e a vivência do sujeito quanto ao próprio processo de envelhecimento.
.: DIRIGIDO A :.
Profissionais que atuam com idosos, portadores de diploma de graduação na(s) área(s) e/ou curso(s) de psicologia, gerontologia, serviço social, enfermagem, fisioterapia, terapia ocupacional, medicina, direito, educação, enfim, a todos os portadores de diploma de graduação interessados em aprofundar seus conhecimentos sobre os desafios do processo de envelhecimento, da longevidade e da velhice. O foco é na demanda de atendimento e melhor atenção à saúde do idoso frágil.
.: ESTRUTURA E CARGA HORÁRIA :.
48 horas
.: INVESTIMENTO ( mensalidade ) :.
Valor total do curso R$ 868,00
Parcelado em 4x Matrícula: R$ 217,00 + 3 parcelas de R$ 217,00
* As parcelas são mensais e estão sujeitas aos reajustes legais. Consulte nosso Atendimento, (11) 3124.9600, para informações sobre condições especiais no pagamento parcelado para associações, alunos, professores, funcionários, ex-alunos da PUC-SP e Grupos (empresas, escolas ou outras instituições).