Ana Maria Galrão Rios

Estas são algumas regras que norteiam o nosso trabalho específico de psicoterapeutas junguianos que utilizam técnicas de trabalho corporal.  Foram vividas, pensadas, inspiradas por outras instituições e colegas. Mais do que regras, estes ítens refletem nossa atitude frente ao paciente e frente à psicoterapia.

A Chegada: Nós não anunciamos, não fazemos propaganda, não convencemos ninguém a fazer terapia, não seduzimos e não vamos atrás do paciente. Isto não por  orgulho ou soberba, mas porque nosso instrumento de trabalho é o comprometimento consciente  do ego do paciente com o processo. Se ele não quer, se ele não investe energia nisso, não há nada a fazer. Procurar pelo terapeuta faz parte do processo de concentração de energia. A própria busca já vai preparando o campo terapêutico, gerando imagens, projeções, expectativas. A regra, então, é: a Montanha vai a Maomé. Nós, no caso, somos Maomé.

O Contrato: Nós fazemos um contrato o mais claro possível, falando sobre a frequência das sessões, pagamento, férias e interrupções, sobre o método, sobre nossa formação profissional e esclarecemos quaisquer dúvidas que o paciente possa ter a respeito do trabalho. O paciente é livre para questionar, para se submeter ou não a quaisquer dos métodos usados pelo terapeuta. O terapeuta é responsãvel por oferecer um local de trabalho adequado.

A Presença: O terapeuta esforça-se para estar presente energeticamente, emocionalmente e cognitivamente, centrado no relacionamento com o paciente, respeitando seus limites e processos internos. Não permite que suas próprias necessidades de gratificação conduzam o processo. O terapeuta é responsável pelo manejo da transferência e contratransferência, evitando agredir o paciente ou fazer demonstrações inadequadas de sabedoria. Para que possa estar presente, o terapeuta é responsável por prover a si mesmo boas condições internas e externas de trabalho.  O terapeuta cuida de si e de suas necessidades como profissional e pessoa, tratando de fazer a higiene terapêutica na parte que lhe cabe, cuidando do próprio desenvolvimento e integração. O terapeuta permanece constantemente tentando reconhecer a própria sombra.

A Honestidade: O terapeuta se mantém honesto a respeito de suas qualificações e treinamento, dos limites da terapia e de sua capacidade para atender adequadamente determinados casos. Deve apresentar realisticamente ao paciente a utilidade ou necessidade de outros instrumentos e da intervenção de  profissionais de áreas afim, tais como médicos psiquiatras ou  neurologistas. Pertence ao âmbito da honestidade do terapeuta esclarecer o paciente, quando apropriado, a respeito de sentimentos, erros, falhas, e a respeito dos valores que norteiam sua atuação, instrínsicos ao seu trabalho e à sua visão de ser humano.

O Respeito: O terapeuta respeita os limites do paciente, tanto físicos, quanto emocionais, espirituais, intelectuais, religiosos, sociais e políticos. Cada um tem sua frequência de vibração, e não há melhor nem pior, mas coerente e “mais completo em si mesmo”. O terapeuta respeita o livre arbítrio do ego do paciente, e não condena escolhas. Gradua seu ritmo pelo ritmo do paciente. Não tem intenções pelo ou para o paciente. Ao conduzir o trabalho, principalmente o trabalho corporal, não pretende produzir efeitos específicos. A orientação virá, sempre, do Self, do processo de individuação do próprio paciente. Abordamos o corpo e a psique do paciente de um modo junguiano, ou seja, pressupondo que o inconsciente funciona de modo compensatório e se manifestará apontando os próprios caminhos de integração. Não tentamos corrigir nada, segundo nossos critérios pessoais. Se o terapeuta desconhecer ou estiver em oposição a qualquer estrutura pessoal ou social do cliente, a um ponto que prejudique a terapia, compromete-se a tomar as providências cabíveis: confrontar, aprender, fazer supervisão, mudar o contrato ou até encaminhar o paciente, encerrando a terapia. 

A Continência ou A Confiança: O terapeuta estará atento aos outros relacionamentos que pode, direta ou indiretamente ter com o paciente, que influenciem ou interfiram com o relacionamento terapêutico. Geralmente evitará trabalhar com pacientes com quem tenha outras relações, sejam de emprego, familiares ou de amizade. Quando há contato social ou profissional, esclarecerá sua interferência, mantendo os limites da terapia. O terapeuta se mantém discreto a respeito de informações que receba sobre seu paciente, direta ou indiretamente, por relato ou observação pessoal. O paciente será informado se a sessão estiver sendo, de qualquer modo, registrada, e deverá concordar explicitamente com isso e com a retenção de qualquer material produzido, seu uso ou publicação. O terapeuta deve manter em mente que trabalha como uma pessoa total, com a responsabilidade consciente de seu ego, não se identificando com qualquer arquétipo de cura ou salvação. Não estando mediunicamente incorporado e nem representando qualquer poder superior, o terapeuta trabalha com sua própria consciência, estando, portanto, sujeito ao conflito moral,  sendo responsável por encontrar respostas compatíveis às situações apresentadas pelo paciente, reservando-se a liberdade que permite a escolha da atuação  e, portanto, o ato ético,  lembrando que está sujeito tanto à lei comum quanto aos princípios orientadores evocados a partir de sua experiênca individual com o Self, dentro de um processo maior, onde há um encontro com a humanidade dentro de si e uma habilidade para arcar com a tensão gerada pelas polaridades opostas.

O terapeuta aceita a noção de livre arbítrio também para o paciente, não forçando seu desenvolvimento em nenhuma direção: a escolha é livre, mesmo que antagonize as direções da personalidade mais ampla do paciente. A vontade do ego pode, muitas vezes, se sobrepor à do Self. As consequências serão responsabilidade do paciente, nunca encaradas como um castigo, mas um retorno da energia assim direcionada.

O Poder: O terapeuta usa sua posição, enquanto figura de poder para o paciente, para favorecer o desenvolvimento deste e de sua autonomia. Nós não exploramos o paciente de qualquer forma: financeiramente, emocionalmente, sexualmente ou praticamente. Encorajamos a consciência do paciente e trabalhamos em prol do fortalecimento de seu ego e auto-estima. Não usamos o paciente para nosso engrandecimento ou prazer pessoal, em nenhuma circunstância. O paciente é livre para ir e vir, para interromper ou encerrar o processo terapêutico quando lhe for conveniente, sem que tentemos retê-lo por qualquer motivo pessoal. A independência responsável do paciente será sempre incentivada.

A Inspiração: Dentro da nossa linguagem, o terapeuta encaminha o processo sob a orientação do Terceiro Ponto, fazendo contato e trabalhando a partir dele. O terapeuta mantém em mente que sempre há um ponto de vista superior a partir do qual a situação pode ser compreendida. Nós não nos esquecemos que, além do ego, como orientador dos processos, há o Self. Aprendemos em nosso treinamento de psicoterapeutas corporais que a presença do Terceiro Ponto é a condição necessária para o apropriado relacionamento terapêutico. Entendemos o Terceiro Ponto como  uma “projeção do Self”, cuja presença evita a inflação do ego do terapeuta, que poderia facilmente atribuir aos seus próprios poderes os efeitos de trabalho sutil. O Terceiro Ponto circula e reorganiza a energia que flui entre ambos, paciente e terapeuta. O primeiro ponto corresponde ao próprio sujeito, o segundo ao objeto percebido, e o terceiro ao campo entre e acima destes, não perceptível pelos sentidos, mas pelos olhos da alma (psique), correspondendo a um ponto virtual projetado no espaço pelo terapeuta, que assim entra em contato consciente com a realidade do Self, permitindo que esta energia se manifeste no trabalho terapêutico. Evocar o Terceiro Ponto significa  sacrificar  o ego em prol da energia do Self, buscando aquilo que Jung chama de “desejável ponto intermediário da personalidade, algo inefável que se coloca entre os opostos, ou melhor que os une, como resultado do conflito, ou o produto da tensão energética, que leva ao nascimento da personalidade, um passo profundamente individual em direção à próxima fase. ( CW vol 7 par 230)

Nós sabemos que as inquietudes do ego se desfazem e se transformam na profundidade e eternidade do Self. Nós tentamos trabalhar procurando reconhecer e identificar o destino único e irreprodutível de cada ser humano e colaborar, na medida das possibilidades humanas do terapeuta e das técnicas da terapia, para a mais plena realização deste trajeto estabelecido pelas Forças Superiores.

bibliografia:

1. Código de Ética do CRP

2. Código de Ética do EABP ( european association of body psichotherapy)

3. Subtle touch ethics – congresso Isseeem, 2003; Leda Perillo Seixas, Anita Ribeiro e Ana Rios

4. Ajuda e palpites de muitos amigos: Augusto, Betty, Elci e Arnaldo, o povo de longe e o de perto.